Para compreender o atual tabuleiro político brasileiro, é preciso ter a capacidade de limpar o ruído do noticiário diário e ligar os pontos que a grande mídia teima em cobrir de forma isolada. O que se assiste hoje nos bastidores do Poder Judiciário não é um conjunto de decisões técnicas e espontâneas, mas sim a execução milimétrica de um projeto de poder e blindagem desenhado anos atrás.
A chave para decifrar o presente está guardada em duas memórias incômodas do governo anterior: a promessa de um ministro "terrivelmente evangélico" e a confissão explícita de uma estratégia baseada em cortinas de fumaça.
O Dia em que a Estratégia foi Revelada
Em 22 de abril de 2020, em uma reunião ministerial que viria a escandalizar o país, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, verbalizou o modus operandi daquela gestão. Enquanto a população e a imprensa focavam legitimamente no avanço avassalador da COVID-19, Salles sugeriu "aproveitar a oportunidade" para "ir passando a boiada e mudando todo o regramento".
Naquele momento, falava-se em desregulamentação ambiental por meio de medidas infralegais — portarias e decretos assinados na surdina. Contudo, o raciocínio de Salles revelava algo mais profundo: o uso estratégico do silêncio, da distração coletiva e do acionamento de braços jurídicos para pavimentar caminhos. Na mesma época, o próprio Salles chegou a sugerir abertamente o acionamento da Advocacia-Geral da União (AGU), comandada por André Mendonça, para blindar o governo e barrar processos que pudessem ameaçar a estrutura governista.
Se em 2020 a "boiada" passava pelos campos e florestas sob o manto da pandemia, em 2026 ela veste a toga e desfila, sutilmente, pelas entrelinhas dos tribunais superiores.
Do Compromisso Político à Blindagem sob a Toga
Voltemos a 10 de julho de 2019. Diante da Bancada Evangélica, o ex-presidente Jair Bolsonaro selou um compromisso: indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF) alguém "terrivelmente evangélico". A promessa se cumpriu em 2021 com a indicação de André Mendonça. O tempo mostrou que o verniz religioso era, na verdade, a roupagem de uma escolha geopolítica interna: garantir um anteparo institucional de longo prazo.
Hoje, os pontos se ligam perfeitamente no cenário eleitoral e jurídico. O recente escândalo revelado pelo The Intercept Brasil, que expôs áudios e mensagens de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociando repasses de R$ 134 milhões com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (envolvido em investigações de fraudes no Banco Master), acendeu o alerta máximo na Direita. Diante da gravidade das revelações, que ameaçam a pré-candidatura de Flávio à Presidência, o mecanismo de proteção foi acionado.
Agindo como vice-presidente do TSE, o ministro André Mendonça determinou a remoção imediata de publicações nas redes sociais que associavam o senador Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro e a milícias do Rio de Janeiro. A justificativa oficial, como de praxe, evoca a contenção de "narrativas descontextualizadas" e o combate à desinformação no período de pré-campanha.
Paralelamente, trava-se nos bastidores do STF uma batalha silenciosa e feroz pela relatoria dos inquéritos que envolvem o Banco Master e o clã Bolsonaro. Enquanto o campo progressista e o ministro Alexandre de Moraes tentam manter as investigações sob rédeas firmes, a defesa de Flávio Bolsonaro move peças para forçar a suspeição de Moraes, tentando empurrar o caso em definitivo para as mãos de quem? De André Mendonça, que já se reuniu com a Polícia Federal para tratar dos "vazamentos" do caso.
A Conexão Silenciosa
O que a imprensa tradicional falha em apontar é que a atuação contemporânea de Mendonça não é um fato isolado. Ela é o desdobramento natural da engrenagem descrita em 2019 e 2020.
Mendonça opera exatamente onde o sistema precisa: nos prazos, nos pedidos de vista, nas decisões liminares de remoção de conteúdo e na contenção de danos à imagem da extrema-direita. Retirar do ar páginas e críticas que ligam o clã Bolsonaro às milícias ou a escândalos financeiros bilionários é a versão judicializada do "dar de baciada". Limpa-se o terreno, censura-se a crítica contundente sob o argumento técnico da "preservação do debate", e garante-se que a boiada passe sem fazer barulho.
Para quem sabe ligar os pontos, o cenário atual não traz surpresas. É apenas a história cobrando o preço de um projeto de poder que foi anunciado em cultos, confessado em reuniões ministeriais e que hoje cobra seu dividendo diretamente do coração da justiça brasileira.
O Epicentro das Eleições de 2026: A Nova Guarda da Justiça Eleitoral
O xadrez de longo prazo ganha contornos dramáticos quando olhamos para a composição atual do Tribunal Superior Eleitoral. A recente ascensão dos ministros Kassio Nunes Marques à Presidência e de André Mendonça à Vice-Presidência do TSE desenha a engenharia perfeita para o controle do processo político e eleitoral. A dupla, indicada por Jair Bolsonaro ao STF, agora comanda os rumos das eleições mais polarizadas da história recente do país.
Estar na liderança e na vice-presidência da Corte Eleitoral vai muito além de presidir sessões. Significa ditar o ritmo de julgamentos decisivos, influenciar a pauta de cassações de mandatos, definir o rigor na fiscalização de propagandas políticas e, principalmente, modular o peso das canetadas em pedidos de direito de resposta e remoção de conteúdo.
A liminar de Mendonça blindando a imagem de Flávio Bolsonaro nas redes sociais não é um ensaio isolado, mas sim o cartão de visitas de como o poder será arbitrado na antessala das urnas. Em uma posição tão estratégica, o papel do ministro não precisa ser o de um militante estridente; pelo contrário, a eficácia de sua atuação reside no equilíbrio técnico aparente. Ao dosar decisões — ora concedendo uma liminar ao campo progressista para manter a fachada de isenção, ora agindo com rigor cirúrgico para asfixiar denúncias de corrupção e elos com milícias que ameacem o clã Bolsonaro —, o "terrivelmente evangélico" torna-se o fiador invisível do destino eleitoral da Direita.
Para quem, em 2020, viu a "boiada" passar sob o pretexto de focar na pandemia, o cenário atual mostra que a boiada mudou de pasto, mas o portão continua sendo aberto por dentro. Com o controle do tribunal que dita as regras do jogo democrático, o projeto de poder iniciado anos atrás atinge sua maturidade institucional. Resta saber se o campo progressista e a opinião pública conseguirão, finalmente, ligar os pontos antes que o apito final seja tocado.
Por André Daguiar.
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