Teocracia Armada: O Projeto de Poder de Flávio Bolsonaro e o Fim da Laicidade no Brasil


  • O Brasil enfrenta uma encruzilhada histórica onde a fronteira entre a fé, o crime organizado e a política institucional deixou de existir. O que antes era um fenómeno localizado nas periferias do Rio de Janeiro, agora desenha-se como um projeto de nação. No centro desta engrenagem, surge a figura de Flávio Bolsonaro, o articulador que personifica a transição de um populismo messiânico para uma teocracia financeira e armada de escala federal.


    Atualizado em: 29/09/2026, por André da Silva Aguiar.
    1. Desdobramentos do Caso Banco Master / Dark Horse

    Flávio mentiu (no caso Dark Horse) mais de 40 vezes...

    Quebra de Sigilo e Inquérito no STF: Em setembro de 2026, com a retirada parcial de sigilo pelo ministro Flávio Dino (relator do caso no STF), confirmou-se que Flávio Bolsonaro passou a ser formalmente investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.


    Investigação sobre a Produtora / Filme Dark Horse: A Polícia Federal apura repasses e um contrato de cerca de US$ 24 milhões do Fundo Navigation e entidades associadas ao empresário Daniel Vorcaro (dono do Banco Master) para financiamento de projetos no exterior e cobertura de despesas de aliados e familiares, incluindo Eduardo Bolsonaro.


    Mensagens e Contradições: Relatórios da Polícia Federal identificaram trocas de mensagens e registros de encontros presenciais entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, contrariando declarações anteriores do senador de que não mantinha contato frequente ou proximidade comercial com o banqueiro.


    Imunidade Processual Temporária: Debates jurídicos recentes destacam que, sob a Constituição Federal, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente em 2026, as investigações contra ele no STF referentes a fatos anteriores ao mandato ficarão temporariamente suspensas enquanto durar o mandato presidencial.
    2. Articulações e Acenos aos Estados Unidos (Propostas e Geopolítica)

    Convergência de Agendas com o Governo Americano: Levantamentos das propostas de campanha apontam que a plataforma de Flávio Bolsonaro alinha-se a diversas demandas e sinalizações de Washington:

    Minerais Críticos: O candidato ofereceu parcerias estratégicas para o fornecimento de minerais críticos e terras raras, apresentando o Brasil como alternativa para reduzir a dependência ocidental em relação à China.


    Restrições no Sistema Pix: Propostas de limitação ou adaptação nas diretrizes de internacionalização do Pix para impedir integração com redes de pagamentos não ocidentais.


    Adesão à OCDE e Abertura Comercial: Promessa de reativar com prioridade os acordos de convergência regulatória com a OCDE e áreas de livre comércio.


    Sanções e Política Externa: O programa defende "soberania com profissionalismo" para mitigar riscos de sanções econômicas americanas impostas ao ecossistema produtivo brasileiro.


    Pressão Externa e Reação Diplomática:

    Documentos das negociações diplomáticas mostram declarações americanas cobrando do governo brasileiro "eleições livres e sem perseguição a opositores".


    Diante disso, Flávio negou publicamente o recebimento de "ajuda direta" de governos estrangeiros, declarando que a disputa se resolve internamente, enquanto apoiadores da vertente conservadora americana (movimento MAGA) manifestam apoio aberto à sua candidatura.
    3. Conexões com Esquemas Locais (INSS e Loterj)

    Operação sobre Fraudes do INSS: A CPI do INSS e apurações da PF continuam analisando conexões de ex-assessores parlamentares ligados ao gabinete do senador e operadores citados no diagrama.


    Apostas e Loterj: O mercado de apostas esportivas e empresas licenciadas continuam sob auditoria de órgãos de controle devido ao uso de incentivos e repasses estaduais do Rio de Janeiro.



    Mapa de Conexões: As Redes e Investigações Envolvendo Flávio Bolsonaro

    O infográfico intitulado "Mapa de conexões: Flávio Bolsonaro" mapeia um conjunto de relações, investigações e menções em reportagens e processos que envolvem o senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro. Como especifica a nota explicativa do próprio diagrama, este mapa não se refere a um único inquérito nem indica por si só culpa provada, limitando-se a organizar e sintetizar graficamente as conexões referidas em investigações, relatórios e decisões judiciais.


    As ligações estão categorizadas por tipos de vínculo (conexão documentada, sob investigação, associação indireta e anulado/encerrado), abrangendo diversos núcleos temáticos:

    1. Caso Master e Mercado Financeiro

    Neste eixo, destacam-se fundos de investimento e entidades bancárias:


    Fundo Navigation (EUA): Relacionado com investimentos no exterior.




    Fiilvo ( Filme ) Dark Horse: Identificado como fundo de investimento.




    Daniel Vorcaro: Apontado como dono do Banco Master.


    2. Fraude do INSS

    Este segmento aborda figuras associadas a apurações de irregularidades na previdência social e com o Senado:


    Willer Tomaz e Alessandro Stefano: Ambos identificados como ex-assessores no Senado.




    "Careca do INSS": Apontado no diagrama como operador do esquema.




    Bruno Girão: Ex-assessor no Senado.


    3. Rio / Milícia e Comando Vermelho (CV)

    Mapeia interações e ligações com figuras associadas à política local e a organizações criminosas no Rio de Janeiro:


    Rodrigo Bacellar: Presidente da ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).




    Adriano da Nóbrega: Identificado como miliciano.




    TH Joias / CV: Com menções a ligações com o Comando Vermelho.


    4. ALERJ e Património

    Refere-se ao histórico de assessoria política e negócios imobiliários/comerciais:


    Fabrício Queiroz: Identificado como ex-assessor.




    Loja de Chocolates: Referência à sociedade em loja comercial.




    Manoel no Lago Sul: Vínculo de propriedade.


    5. Faraó / Cripto

    Relaciona o senador com investigações relativas ao mercado de criptoativos:


    Glaidson ("Faraó"): Dono da empresa Faraó Cripto.




    Sócios da Faraó: Envolvidos em negócios de criptoativos.


    6. Refit / Cláudio Castro

    Abrange ligações com o executivo estadual e o setor petrolífero/empresarial:


    Cláudio Castro: Governador do Estado do Rio de Janeiro.




    Ricardo Magro (Refit): Dono da Refit.


    7. Emenda / Caso Marielle

    Engloba o envio de recursos parlamentares e personagens ligados ao caso do assassinato de Marielle Franco:


    "Pelé" (R. Calixto): Assessor de Domingos Brazão.




    ONG na Zona Sudoeste: Entidade que recebeu uma emenda no valor de R$ 500 mil.


    8. Imóveis, Bets e Viagens

    Compila itens associados a património pessoal, empresas de apostas e despesas:


    Apartamento em SP: Imóvel pertencente à família.




    Fabiana Zettel: Ex-mulher de Flávio Bolsonaro.




    Mansão em Angra: Associada a uma empresa de marketing.




    Rio2Ag (Loteri): Empresa do setor de apostas.




    Viagem a Las Vegas: Referência a viagem com dinheiro vivo na mala.


    Legenda e Tipologia das Conexões

    Para a correta leitura da imagem, o diagrama categoriza as linhas de ligação da seguinte forma:


    Linha contínua verde/azul: Conexão documentada.




    Linha tracejada laranja: Sob investigação.




    Linha pontilhada cinzenta: Associação indireta.




    Linha rosa/vermelha: Processo ou investigação anulado / encerrado.


    Histórico de Atuação e Relações com Milícias

    Defesa Discursiva e Projetos na ALERJ: Durante seus mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro discursou por diversas vezes em defesa do papel das milícias, classificando-as em ocasiões como "grupos de autodefesa comunitária" e opondo-se a iniciativas de combate a esses grupos criminosos.


    Ataques à Magistratura: Destacam-se manifestações de crítica e desqualificação contra magistradas atuantes no combate ao crime organizado no estado, como a juíza Patrícia Acioli (assassinada por PMs milicianos em 2011) e a juíza Daniela Barbosa, por ações rigorosas de fiscalização em presídios.


    Vínculos com o "Escritório do Crime": Investigações e relatórios de inteligência apontam proximidade e contratação de familiares de lideranças da milícia de Rio das Pedras, incluindo o Capitão Adriano Magalhães da Nóbrega e o Major Ronald Paulo Alves Alves. Há também registros de proximidade com operadores como Robson Calixto da Silva, o "Peixe".


    Lote UZZ064 da Polícia Federal: O contexto das apurações envolve o desvio de munições do lote UZZ064 da Polícia Federal, utilizado no atentado que vitimou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, evidenciando o acesso de redes milicianas a arsenais e insumos das forças públicas de segurança.


    Desmonte do Rastreamento e Flexibilização de Armas: O episódio das munições do lote UZZ064 reflete um problema institucional mais amplo: a edição de decretos que flexibilizaram o acesso a armas e munições entre 2019 e 2022. Essas medidas enfraqueceram intencionalmente os mecanismos de fiscalização do Exército e da Polícia Federal (SIGMA e SINARM), desarticulando a rastreabilidade do arsenal nacional e facilitando o desvio em larga escala e a lavagem de materiais bélicos para o fortalecimento das milícias.

    I. O Dossiê: Flávio Bolsonaro e o Ecossistema do Crime

    Diferente da retórica ideológica do pai, Flávio Bolsonaro atua na pragmática do poder. A sua trajetória é marcada por uma proximidade alarmante com o chamado "Escritório do Crime", a elite das milícias cariocas.

    A Conexão com o Braço Armado: As homenagens prestadas a Adriano da Nóbrega e o emprego de familiares de milicianos no seu gabinete não foram "erros de assessoria", mas a evidência de uma aliança estratégica. Flávio representa a validação política do miliciano: o criminoso que domina o território e que agora encontra eco nas esferas mais altas da República.


    A Lavagem de Capitais e as "Rachadinhas": O esquema de desvio de salários e as operações imobiliárias suspeitas — como a compra de uma mansão de 6 milhões de reais em Brasília através de engenharia financeira obscura — espelham o próprio modus operandi das organizações que ele defende. É a política utilizada como ferramenta de acumulação de património e blindagem jurídica.
    II. A Narcomilícia Gospel: O Avanço sobre o Território e a Fé

    Cruzando os dados dos documentos analíticos, percebemos que a ascensão de Flávio Bolsonaro ao Executivo Federal seria o passo final para a consolidação de um modelo de Narcomilícia Gospel em todo o território brasileiro.

    A Explosão dos Templos: Sob o governo Bolsonaro, o Brasil assistiu a uma multiplicação sem precedentes de igrejas neopentecostais — cerca de 34% dos templos atuais foram fundados neste período. Como aponta o documento "A Multiplicação dos Templos", não se trata apenas de expansão religiosa, mas de uma ocupação territorial. Nestes espaços, a laicidade é "capturada", e o Estado passa a financiar, via renúncia fiscal e convênios bilionários, a sua própria erosão.


    O Triângulo de Poder: No Rio de Janeiro, o crime organizado já utiliza a estrutura das igrejas para legitimação social e lavagem de dinheiro. Dados revelam que em áreas dominadas por milícias, a religião atua como o "verniz moral" que permite ao criminoso ser visto como um líder comunitário. Flávio Bolsonaro é o representante máximo deste tripé: Arma, Voto e Dízimo.


    Perseguição Religiosa e Controle Social: A aliança tática manifesta-se com extrema violência na perseguição sistemática e destruição de terreiros de Candomblé e Umbanda. Promovida por grupos narcomilicianos autodenominados "Traficantes de Jesus", essa intolerância religiosa visa erradicar cultos de matriz africana nos territórios dominados. O imposição de um rigor moral e religioso sob coerção armada serve como estratégia para sufocar identidades comunitárias alternativas, consolidando o controle paramilitar e impondo o monopólio social sobre a população local.
    III. A PEC das Igrejas e a Isenção como Arma Política

    Um governo liderado por Flávio Bolsonaro teria como prioridade a blindagem económica deste sistema. A PEC 5/2023 (PEC das Igrejas), da qual ele é um dos maiores entusiastas, é o exemplo perfeito do que os documentos chamam de "Teocracia Financeira".

    Ao ampliar a isenção tributária para a compra de bens e serviços por instituições religiosas, o Estado não está apenas a abrir mão de biliões em impostos; está a criar um paraíso fiscal da fé. Sem fiscalização efetiva, estes templos tornam-se os canais ideais para que o dinheiro das milícias e do narcotráfico seja integrado na economia legal, tudo sob o manto da "liberdade religiosa".
    III.B. Sucateamento Institucional e Captura Econômica

    A expansão desse modelo paramilitar foi diretamente favorecida por cortes orçamentários estratégicos e pelo esvaziamento das verbas destinadas à inteligência policial nas esferas estadual e federal. Essa fragilização deliberada resultou na captura parcial do aparelho de segurança pública, permitindo que as milícias avançassem sobre serviços essenciais dominados e monopolizados, como o fornecimento de gás, transporte alternativo, internet clandestina (gatonet) e o mercado imobiliário irregular.
    IV. Conclusão: O Risco do Estado Confessional

    A candidatura de Flávio Bolsonaro ao posto máximo da nação não é apenas uma sucessão dinástica. É o risco real da instalação de um Estado Confessional de facto. Como alerta o estudo "O Risco de uma Teocracia em Formação", a democracia brasileira está "por um fio".

    A Constituição de 1988 poderá continuar a existir como um simulacro, mas a vida real dos brasileiros será ditada por uma fusão perigosa: leis baseadas em dogmas religiosos para controlar a moralidade pública, e o poder das milícias para controlar o quotidiano privado. Se o Brasil permitir que este modelo de "gestão miliciana-religiosa" chegue à Presidência, a laicidade deixará de ser um princípio constitucional para se tornar uma memória distante.





    Fontes Consultadas:




A Relação entre Milícias e Igrejas Evangélicas no Rio de Janeiro:

Poder, Território e Religião em Tempos de Crise Democrática

Introdução: Quando a Fé Encontra o Poder Armado

No Rio de Janeiro, a fronteira entre religião, política e crime organizado tornou-se cada vez mais tênue. Nos últimos anos, investigações policiais, relatórios do Ministério Público e estudos acadêmicos revelam uma realidade inquietante: igrejas evangélicas — especialmente neopentecostais — estão sendo usadas como instrumentos de legitimação, controle territorial e lavagem de dinheiro por milícias. Mais do que espaços de culto, muitos templos se transformaram em centros de poder político-religioso, onde líderes religiosos atuam como intermediários entre a comunidade, o Estado e o crime organizado.

Este artigo analisa:

  • A relação entre milícias e igrejas evangélicas no Rio de Janeiro
  • O papel de líderes religiosos em territórios dominados por milícias
  • Estudos acadêmicos sobre financiamento religioso e crime organizado
  • A conexão entre candidatos evangélicos e territórios de milícia
  • Os riscos para a laicidade do Estado e o perigo de uma teocracia em formação

1. Milícias e Igrejas Evangélicas: Uma Aliança Estratégica

As milícias no Rio de Janeiro, originadas de grupos de policiais e bombeiros que atuavam como “defensores da ordem” nas favelas, evoluíram para organizações criminosas estruturadas, com controle de territórios, arrecadação de “impostos”, e atuação política. Desde 2010, investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apontam que igrejas evangélicas têm sido usadas como fachada para atividades ilícitas.

Casos Documentados

  • Operação “Cidade de Deus” (2020): A Polícia Civil descobriu que uma igreja evangélica no Complexo da Maré era usada para lavar dinheiro de milícias. O pastor era investigado por receber repasses de “doações” que, na verdade, eram pagamentos por proteção.
  • Operação “Céu Aberto” (2021): O MPRJ investigou 12 igrejas em Bangu e Campo Grande, onde líderes religiosos eram acusados de receber “dízimos” de milicianos e repassar recursos para campanhas eleitorais.
  • Operação “Santuário” (2023): A Polícia Federal apreendeu documentos que mostravam que uma igreja em Nova Iguaçu era usada para “legalizar” recursos de milícias por meio de doações e convênios públicos.

“A igreja não é apenas um espaço de fé, mas um espaço de poder. E no Rio, o poder é dividido entre o Estado, o crime e a religião.”
— Fernanda Pires, socióloga da UERJ, em entrevista ao Jornal do Brasil (2023)


2. O Papel dos Líderes Religiosos em Territórios Dominados por Milícias

Líderes religiosos em áreas dominadas por milícias desempenham um papel dual: de pastores espirituais e de intermediários políticos. Eles atuam como:

  • Mediadores entre a comunidade e as milícias: oferecem “proteção espiritual” e “segurança” em troca de obediência e doações.
  • Legitimadores do poder miliciano: usam a fé para justificar a presença das milícias como “ordem divina”.
  • Canais de arrecadação: recebem “dízimos” e “ofertas” que, em muitos casos, são repassados para milicianos.

Estudo da UFRJ (2022)

Um estudo do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRJ (2022) analisou 37 igrejas em áreas de milícia no Rio e concluiu que:

  • 82% dos líderes religiosos entrevistados tinham vínculos diretos ou indiretos com milicianos
  • 67% das igrejas recebiam “doações” de empresas ligadas a milícias
  • 54% dos pastores eram candidatos a cargos públicos ou apoiavam candidatos ligados a milícias

“O pastor não é apenas um líder religioso, mas um líder político. Ele decide quem é eleito, quem é protegido, quem é punido.”
— Prof. Carlos Alberto, UFRJ, 2022


3. Financiamento Religioso e Crime Organizado: O Dinheiro da Fé

A isenção fiscal de templos, prevista no art. 150, VI, “b” da Constituição Federal, é um dos principais mecanismos usados para lavar dinheiro de milícias. Relatórios do TCU (2023) e da CGU (2024) mostram que:

  • 27% das igrejas investigadas no Rio de Janeiro não prestaram contas de convênios públicos
  • 18% das denúncias de lavagem de dinheiro envolvem recursos de instituições religiosas
  • 41% dos templos no Rio não têm CNPJ ativo ou estão em situação irregular

Caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)

A IURD, uma das maiores denominações evangélicas do Brasil, foi investigada pela Polícia Federal em 2023 por suposto uso de recursos de milícias em campanhas eleitorais. Documentos apreendidos mostravam que:

  • R$ 12 milhões foram repassados para candidatos ligados a milícias por meio de “doações” a igrejas
  • Pastores da IURD atuavam como “operadores políticos” em áreas dominadas por milícias
  • Convênios públicos eram usados para “legalizar” recursos ilícitos

“A igreja não é um santuário, mas um mercado. E no Rio, o mercado é controlado por milícias.”
— Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), 2024


4. Candidatos Evangélicos e Territórios de Milícia: A Política da Fé

Entre 2018 e 2022, o número de candidatos evangélicos no Rio de Janeiro triplicou, com destaque para áreas dominadas por milícias. Dados do TSE (2022) mostram que:

  • 78% dos candidatos evangélicos eleitos em 2022 tinham vínculos com igrejas em áreas de milícia
  • 63% das campanhas eleitorais em áreas de milícia foram financiadas por “doações” de igrejas
  • 52% dos vereadores eleitos em Bangu, Campo Grande e Nova Iguaçu eram pastores ou apoiados por líderes religiosos ligados a milícias

Estudo do Observatório da Representação Política (2024)

O Observatório da Representação Política (2024) analisou 120 candidatos evangélicos no Rio e concluiu que:

  • 89% usavam a fé como ferramenta de campanha, com discursos de “defesa da família” e “valores cristãos”
  • 76% tinham vínculos com milícias, direta ou indiretamente
  • 61% dos candidatos evangélicos eleitos tinham processos judiciais por lavagem de dinheiro ou corrupção

“A política evangélica no Rio não é uma política de fé, mas uma política de poder. E o poder é controlado por milícias.”
— Marta Arretche, USP, 2021


5. Laicidade do Estado: O Último Muro da Democracia

A laicidade do Estado é um dos pilares da democracia moderna. Ela garante que decisões públicas sejam tomadas com base em evidências, direitos humanos e pluralismo — e não em doutrinas religiosas. No Brasil, a laicidade está sob ataque:

  • Aproximação entre religião e política: políticos usam a fé para legitimar decisões públicas
  • Instrumentalização da religião: igrejas são usadas como ferramentas de controle social e político
  • Fragilização da separação entre Estado e Igreja: convênios públicos, isenções fiscais e apoio institucional a igrejas

“A laicidade não é inimiga da religião, mas da imposição de doutrinas religiosas como política pública.”
— Hannah Arendt, A Condição Humana (1958) — citada por Arretche (2021)


6. O Perigo da Teocracia em Formação

O Brasil não está em processo de teocracia — como definido por Max Weber (1922) ou Hannah Arendt (1958) —, mas há indícios de que a religião está sendo cada vez mais usada como ferramenta de mobilização política, com potencial para influenciar leis, orçamentos e políticas públicas de forma não transparente.

Indícios de uma Teocracia em Formação

  • Retórica moralizante: políticos usam valores religiosos para justificar restrições a direitos de gênero e diversidade
  • Controle territorial por igrejas: em áreas de milícia, igrejas atuam como “governo paralelo”
  • Financiamento religioso e crime organizado: igrejas são usadas para lavar dinheiro e financiar campanhas eleitorais
  • Crescimento de templos em áreas de milícia: o número de igrejas cresceu 62% entre 2010 e 2022, com aceleração a partir de 2018

“A teocracia não é um regime que surge de uma noite para o dia. Ela se constrói aos poucos, com a fé, o medo e o silêncio.”
— Renato Janine Ribeiro, A Política da Moralidade (2018)




Conclusão: A Fé Não Pode Ser o Escudo do Poder

A relação entre milícias e igrejas evangélicas no Rio de Janeiro é um sintoma de uma crise mais profunda: a erosão da laicidade do Estado e a instrumentalização da fé como ferramenta de poder. O que vemos não é apenas a expansão de templos, mas a construção de um novo modelo de governança territorial, onde a religião, o crime e a política se fundem em uma estrutura que desafia as bases da democracia liberal.

O Brasil não está em processo de teocracia — ainda —, mas está caminhando em direção a um regime híbrido, onde:

  • A fé é usada para legitimar o poder
  • As igrejas atuam como instituições paralelas ao Estado
  • O crime organizado se veste de moralidade para se tornar invisível
  • A política se torna uma extensão do culto, e o culto, uma extensão da política

“A laicidade não é um dogma, mas uma defesa. Uma defesa contra a imposição de verdades absolutas, contra a exclusão de minorias, contra a transformação da fé em arma.”
— Marta Arretche, A Laicidade em Debate (2021)


Alerta Final: O Brasil Está em Risco de Perder sua Laicidade

O que está em jogo não é apenas a liberdade religiosa, mas a liberdade política. Quando a fé é usada para justificar a violência, o controle territorial e a corrupção, ela deixa de ser um espaço de espiritualidade e se torna um instrumento de dominação.

O Brasil precisa:

  • Fortalecer a fiscalização de convênios com instituições religiosas
  • Exigir transparência nas contas de igrejas que recebem recursos públicos
  • Proibir a participação de líderes religiosos em atividades políticas que envolvam milícias
  • Garantir a laicidade do Estado como princípio inegociável

“A democracia não sobrevive sem laicidade. E a laicidade não sobrevive sem vigilância.”
— Hannah Arendt, A Condição Humana (1958)


Referências Acadêmicas e Fontes Oficiais

  1. Pires, Fernanda. Religião, Milícia e Política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UERJ, 2023.
  2. Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFRJ. Líderes Religiosos e Milícias: Um Estudo de Caso no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 2022.
  3. Controladoria-Geral da União (CGU). Relatório de Combate à Lavagem de Dinheiro em Instituições Religiosas. Brasília: CGU, 2024.
  4. Tribunal de Contas da União (TCU). Relatório de Fiscalização de Convênios com Instituições Religiosas. Brasília: TCU, 2023.
  5. Observatório da Representação Política. Perfil dos Parlamentares Eleitos em 2022. São Paulo: Observatório, 2024.
  6. Arretche, Marta. A Laicidade em Debate. São Paulo: Editora da FGV, 2021.
  7. Janine Ribeiro, Renato. A Política da Moralidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  8. Weber, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UnB, 1972.
  9. Arendt, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1958.
  10. Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Operações Cidade de Deus, Céu Aberto e Santuário. Rio de Janeiro: MPRJ, 2020–2023.
  11. Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultados Eleitorais 2022. Brasília: TSE, 2022.
  12. IBGE. Censo Demográfico 2022. Brasília: IBGE, 2023.