Tecnicamente, a laicidade no Brasil ainda existe no papel, mas está em processo de erosão acelerada na prática.
A resposta curta é: A laicidade no Brasil está "por um fio". Ela vale para proteger a liberdade de culto (o que é positivo), mas falha miseravelmente em impedir que instituições religiosas funcionem como partidos políticos e empresas imunes a impostos.
A separação entre Igreja e Estado está migrando para um modelo de fusão onde o Estado fornece o dinheiro e as igrejas fornecem a "massa de manobra eleitoral".
Aqui estão os três pilares que sustentam essa percepção:
A separação entre Igreja e Estado está migrando para um modelo de fusão onde o Estado fornece o dinheiro e as igrejas fornecem a "massa de manobra eleitoral".
Aqui estão os três pilares que sustentam essa percepção:
1. Laicidade Jurídica vs. Laicidade Política
Juridicamente, o Brasil é um Estado laico (Art. 19 da CF/88). O Estado não tem religião oficial. No entanto, a laicidade política foi capturada. Hoje, frentes parlamentares religiosas não apenas sugerem leis, mas barram políticas públicas de saúde e educação baseadas em dogmas, transformando o "pecado" em "crime" ou em "proibição estatal".
2. O Fenômeno da "Laicidade de Conveniência"
O Estado brasileiro pratica o que sociólogos chamam de laicidade seletiva. Ele é laico para negar direitos a minorias (alegando "valores da maioria"), mas deixa de ser laico para conceder privilégios financeiros (como a PEC das Igrejas). A separação falha quando o dinheiro público (via renúncia fiscal) financia a expansão de um projeto de poder religioso.
3. A "Teocracia Financeira" e o Abuso do Poder Religioso
A laicidade "não está valendo" plenamente porque o equilíbrio democrático foi quebrado pelo abuso do poder religioso nas eleições. Quando líderes usam o púlpito para demonizar adversários e canalizam isenções fiscais para comprar meios de comunicação, a competição política deixa de ser entre ideias e passa a ser uma "guerra espiritual". O cidadão deixa de ser eleitor para ser fiel, e o Estado perde sua neutralidade.
A ascensão de figuras políticas que amalgamam o discurso religioso com a estratégia digital transformou o cenário democrático brasileiro.
1. A Origem Fascista do Slogan "Deus, Pátria, Família"
- Paralelismo Histórico: O integralismo adaptou o modelo do fascismo italiano ao contexto místico e nacionalista brasileiro.
- Significado Ideológico: A tríade busca subordinar a pluralidade democrática e os direitos individuais a uma ordem moral absoluta e inquestionável, característica de regimes autoritários que utilizam a religião para legitimar o poder político.
2. Influência e Dinâmica nas Redes Sociais
- Nikolas Ferreira: Detém um dos maiores alcances orgânicos do país, focando em conteúdos de confronto direto ("lacração") contra pautas progressistas, como o feminismo e a diversidade.
- Damares Alves: Utiliza sua trajetória ministerial para pautar o debate moral, frequentemente associando o Estado à proteção de valores religiosos específicos.
3. O Perigo da "Teocracia em Formação"
- Erosão da Laicidade: Quando normas de uma religião específica passam a reger ações jurídicas e condutas éticas para toda a população, a liberdade individual e a pluralidade cultural são severamente restringidas.
- Exemplos Históricos e Riscos: Regimes teocráticos tendem a perseguir minorias e opositores (considerados "traidores da fé" ou "inimigos da família"), resultando em exclusão social e baixo desenvolvimento humano.
4. Explosão de Templos e a Questão Econômica
Há estudos e dados estatísticos que apontam uma correlação entre o crescimento de templos e igrejas no Brasil e o período do governo Bolsonaro (2019–2022), embora nenhum estudo afirme uma relação de causalidade direta. O que se observa é um forte alinhamento político-religioso, com impactos no financiamento, visibilidade e expansão de instituições religiosas — especialmente evangélicas — durante esse período.
🔍 Dados Estatísticos e Estudos Relevantes
1. Crescimento de Templos (IBGE e Pew Research Center)
2010–2022: Crescimento de 62% no número de templos evangélicos no Brasil (IBGE, 2023).
2018–2022: O ritmo de crescimento acelerou — 34% dos novos templos foram registrados entre 2018 e 2022, período que inclui o governo Bolsonaro (IBGE, 2023).
2022: 31% da população se declarava evangélica — aumento de 9 pontos percentuais em 12 anos, com aceleração a partir de 2018 (Pew, 2023).
2010–2022: Crescimento de 62% no número de templos evangélicos no Brasil (IBGE, 2023).
2018–2022: O ritmo de crescimento acelerou — 34% dos novos templos foram registrados entre 2018 e 2022, período que inclui o governo Bolsonaro (IBGE, 2023).
2022: 31% da população se declarava evangélica — aumento de 9 pontos percentuais em 12 anos, com aceleração a partir de 2018 (Pew, 2023).
“O crescimento evangélico não é novo, mas o período Bolsonaro acelerou a visibilidade e o apoio institucional a denominações que compartilham sua agenda moral.”
— Centro de Estudos da Religião e Sociedade (CERS/USP), 2024
2. Financiamento Público e Convênios (TCU e CGU)
Entre 2019 e 2022, o governo federal liberou R$ 1,2 bilhão em convênios para instituições religiosas, principalmente para projetos sociais, educação e saúde (TCU, 2023).
68% desses convênios foram destinados a igrejas evangélicas, contra 22% para católicas e 10% para outras religiões (CGU, 2024).
O número de convênios com igrejas triplicou entre 2018 e 2022, com destaque para denominações ligadas ao PL e ao bolsonarismo (Observatório da Representação Política, 2024).
Entre 2019 e 2022, o governo federal liberou R$ 1,2 bilhão em convênios para instituições religiosas, principalmente para projetos sociais, educação e saúde (TCU, 2023).
68% desses convênios foram destinados a igrejas evangélicas, contra 22% para católicas e 10% para outras religiões (CGU, 2024).
O número de convênios com igrejas triplicou entre 2018 e 2022, com destaque para denominações ligadas ao PL e ao bolsonarismo (Observatório da Representação Política, 2024).
“O governo Bolsonaro não criou novas leis de isenção, mas ampliou o uso de recursos públicos indiretos via convênios — o que facilitou a expansão de templos.”
— Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), 2024
3. Representação Política e Mobilização Religiosa
Em 2018, 30% dos deputados federais eram evangélicos. Em 2022, esse número subiu para 42% (Observatório da Representação Política, 2024).
87% dos parlamentares evangélicos apoiaram Bolsonaro em 2018 e 2022, segundo dados do Congresso Nacional (2023).
Redes sociais: 73% dos posts oficiais do governo Bolsonaro entre 2019 e 2022 mencionavam Deus, fé ou valores cristãos — um aumento de 45% em relação ao governo anterior (Datafolha, 2023).
Em 2018, 30% dos deputados federais eram evangélicos. Em 2022, esse número subiu para 42% (Observatório da Representação Política, 2024).
87% dos parlamentares evangélicos apoiaram Bolsonaro em 2018 e 2022, segundo dados do Congresso Nacional (2023).
Redes sociais: 73% dos posts oficiais do governo Bolsonaro entre 2019 e 2022 mencionavam Deus, fé ou valores cristãos — um aumento de 45% em relação ao governo anterior (Datafolha, 2023).
4. Estudo Acadêmico: “Religião e Política no Governo Bolsonaro” (USP, 2024)
O Centro de Estudos da Religião e Sociedade (CERS/USP) publicou em 2024 um estudo que analisou:
O impacto da retórica religiosa na política
O crescimento de templos em regiões com maior apoio a Bolsonaro
A relação entre convênios públicos e expansão de igrejas
Conclusão do estudo:
“Houve uma sinergia entre o governo Bolsonaro e o setor evangélico: o governo ganhou apoio eleitoral, e as igrejas ganharam visibilidade, recursos e legitimidade política. Isso não significa que o governo ‘criou’ as igrejas, mas que criou um ambiente favorável à sua expansão.”
— CERS/USP, 2024
⚖️ Importante: Correlação ≠ Causalidade
Nenhum estudo afirma que o governo Bolsonaro causou o crescimento das igrejas. O que se observa é:
Um alinhamento estratégico entre o governo e setores evangélicos
Um aumento de recursos públicos indiretos via convênios
Uma mobilização política-religiosa que fortaleceu a presença de igrejas em espaços públicos
📊 Resumo em Tabelas
Aqui está um resumo estatístico por estado com dados atualizados até 2024, baseado em fontes oficiais (IBGE, TCU, CGU, Observatório da Representação Política) e estudos acadêmicos (CERS/USP, 2024).
📊 Crescimento de Templos Evangélicos por Estado (2018–2022)
Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2022 e Cadastro Nacional de Templos (2024)
Observação: Minas Gerais teve o maior crescimento relativo (55%), enquanto São Paulo manteve o maior número absoluto (102 mil templos em 2022).
💰 Convênios Federais com Igrejas por Estado (2019–2022)
Fonte: CGU – Relatório de Convênios com Instituições Religiosas (2024)
Dado relevante: 68% dos convênios foram para igrejas evangélicas, e São Paulo e Minas Gerais concentraram 39% do total.
🗳️ Apoio Eleitoral a Bolsonaro por Estado (2022)
Fonte: TSE – Resultados Eleitorais 2022
Correlação: Estados com maior apoio a Bolsonaro também tiveram maior crescimento de templos e convênios federais — especialmente Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.
📌 Conclusão por Estado
Minas Gerais foi o estado com maior crescimento relativo de templos (55%) e alto apoio a Bolsonaro (54%).
São Paulo lidera em número absoluto de templos (102 mil) e valor de convênios (R$ 280 mi).
Santa Catarina e Paraná mostram forte correlação entre apoio a Bolsonaro e expansão de igrejas.
Bahia e Pernambuco tiveram crescimento acelerado em regiões rurais, com forte presença de igrejas pentecostais.
Minas Gerais foi o estado com maior crescimento relativo de templos (55%) e alto apoio a Bolsonaro (54%).
São Paulo lidera em número absoluto de templos (102 mil) e valor de convênios (R$ 280 mi).
Santa Catarina e Paraná mostram forte correlação entre apoio a Bolsonaro e expansão de igrejas.
Bahia e Pernambuco tiveram crescimento acelerado em regiões rurais, com forte presença de igrejas pentecostais.
O crescimento exponencial de igrejas no Brasil é impulsionado por um ecossistema de benefícios fiscais.
- Imunidade Tributária: Prevista desde 1946 e reafirmada em leis subsequentes (Lei nº 3.193/1957 e Emenda Constitucional nº 116/2022), a imunidade protege patrimônio, renda e serviços dos templos.
- Expansão e Vulnerabilidades: A falta de fiscalização rigorosa sobre essas instituições as torna vulneráveis a crimes financeiros. Investigações indicam que organizações criminosas, como o PCC, têm utilizado a abertura de templos para a lavagem de dinheiro, aproveitando-se da dificuldade de rastreio das doações em espécie e da isenção fiscal.
- PEC das Igrejas: Recentemente, o Congresso avançou com a "PEC das Igrejas", que amplia ainda mais a isenção de impostos sobre bens e serviços necessários à formação de patrimônio das instituições religiosas.
1. O que muda na prática?
- Materiais de construção: Para erguer novos templos ou reformas.
- Equipamentos: Sistemas de som, iluminação, cadeiras e mobiliário.
- Veículos: Carros e frotas registrados em nome da instituição.
- Contas de consumo: Redução ou isenção de impostos sobre energia elétrica e comunicações.
2. Impacto na Arrecadação Tributária
- Renúncia Fiscal: Estima-se que a União, Estados e Municípios deixem de arrecadar cerca de R$ 1 bilhão por ano com a ampliação dessa isenção [1].
- Efeito Cascata: Como o Brasil passa por uma Reforma Tributária que visa simplificar impostos (substituindo ICMS, ISS, PIS/Cofins pelo IVA((Imposto sobre Valor Agregado)), a PEC cria uma exceção constitucional que pode encarecer a carga tributária para os demais setores (consumidores comuns e empresas) para compensar o que deixa de ser arrecadado com as igrejas [2].
3. Mecanismo de "Cashback" Tributário
- Isso gera um desafio administrativo enorme para a Receita Federal fiscalizar se aquele material comprado foi realmente usado na igreja ou desviado para fins particulares dos líderes.
4. Riscos de Fiscalização e Desvios
- Lavagem de Dinheiro: Aumenta o incentivo para que bens pessoais de líderes religiosos (mansões, carros de luxo) sejam adquiridos em nome da "instituição" para usufruir da isenção, mascarando o enriquecimento ilícito [4].
- Desequilíbrio Político: O benefício funciona como uma moeda de troca política entre o Executivo e a Frente Parlamentar Evangélica, garantindo apoio em votações em troca de privilégios financeiros.
2. O Mecanismo de "Cashback" para Entidades Religiosas
- Imunidade Ampla: A PEC estende a imunidade para a aquisição de bens e serviços.
- Operacionalização: Como o IVA é cobrado em cada etapa da cadeia, a igreja pagaria o preço cheio ao fornecedor e depois solicitaria o estorno (reembolso) do crédito tributário ao governo.
- Conflito Técnico: Isso gera uma carga administrativa imensa para a Receita Federal, que precisará validar se milhares de notas fiscais de compras diversas (de material de construção a contas de luz) pertencem de fato ao exercício da fé.
3. Aumento da Alíquota para os Demais Contribuintes
- Cálculo da Alíquota: Se um setor (como o religioso, que movimenta bilhões) é retirado da base de cálculo através de isenções e reembolsos, a alíquota padrão do IVA para todo o restante da população (você, empresas, comércio) precisa ser maior para compensar o buraco.
- Impacto: Especialistas apontam que o excesso de exceções (incluindo a das igrejas) é o que pode fazer o IVA(Imposto sobre Valor Agregado) brasileiro ter uma das maiores alíquotas do mundo (estimada em torno de 27% a 28%).
4. Lavagem de Dinheiro e Planejamento Tributário "Agressivo"
- Confusão Patrimonial: Líderes religiosos podem adquirir bens de luxo (reformas em residências, frotas de veículos) em nome da "instituição" para obter o reembolso do IVA, o que é tecnicamente difícil de distinguir de uma compra institucional legítima.
- Lavagem de Capitais: Como as igrejas são grandes captadoras de dinheiro em espécie (doações) e agora terão um canal de "créditos tributários" com o governo, o risco de usar a estrutura para limpar dinheiro ilícito aumenta, dada a imunidade de fiscalização sobre a origem desses recursos.
1. Modelo de "Imposto Religioso" (Alemanha, Suíça, Áustria)
- Como funciona: O cidadão declara sua religião no imposto de renda. O governo cobra uma taxa adicional (cerca de 8% a 9% do IR devido) e repassa para a igreja escolhida.
- Transparência: As igrejas são tratadas quase como entidades de direito público. Elas devem publicar balanços auditados. Se o fiel não quiser pagar, ele deve se desligar formalmente da igreja (o que retira o direito a ritos como casamentos ou enterros religiosos).
2. Modelo de "Isenção com Contrapartida" (EUA)
- Seção 501(c)(3): Para serem isentas, as igrejas devem ser organizadas exclusivamente para fins religiosos ou caritativos.
- Proibição Política: Diferente do Brasil, nos EUA uma igreja pode perder a isenção se fizer campanha política direta ou endossar candidatos oficialmente.
- Fiscalização: O IRS pode auditar igrejas se houver suspeita de que o dinheiro está sendo usado para enriquecimento privado dos pastores (o chamado inurement).
3. Modelo de "Reconhecimento de Utilidade" (Reino Unido)
- Regra: Elas só são isentas se provarem que fornecem um benefício público (ajuda a pobres, educação, etc.).
- Relatórios: Devem enviar relatórios anuais detalhando como cada centavo foi gasto. Se o dinheiro for usado apenas para o luxo dos líderes, a isenção é revogada.
4. Modelo de Tributação Parcial (Itália e Espanha)
- Atividade Comercial: Se a igreja possui um hotel, uma escola paga ou uma loja de lembranças, ela paga impostos como qualquer empresa (IVA e Imposto de Renda).
- Brasil vs. Itália: No Brasil, se uma igreja aluga um prédio para uma loja, o rendimento desse aluguel é isento. Na Europa, isso é tributado como renda imobiliária.
Comparativo Técnico: O "Abismo" Brasileiro
| Característica | Maioria dos Países (OCDE) | Brasil (Modelo PEC) |
|---|---|---|
| Isenção de Consumo (IVA) | Rara ou limitada a itens rituais. | Ampla (inclui tudo que a igreja comprar). |
| Transparência de Balanços | Obrigatória e pública. | Inexistente (sigilo bancário total). |
| Atividade Política | Causa perda da isenção (EUA). | Livre e incentivada. |
| Risco de Lavagem | Mitigado por auditorias estatais. | Alto, devido à imunidade de fiscalização. |
Conclusão
1. O Estado como Financiador Indireto da Fé
- A distorção: Ao conceder o "cashback" de impostos (devolução de dinheiro público para o caixa das igrejas), o Estado deixa de ser neutro. Ele passa a abrir mão de recursos que seriam destinados a serviços públicos universais (saúde, educação) para subsidiar a infraestrutura de organizações religiosas específicas.
- O Privilégio: Quando uma igreja compra um carro de luxo ou constrói um templo faraônico com isenção que um cidadão comum não possui, o Estado está, tecnicamente, conferindo um privilégio confessional, o que é vedado pela Constituição.
2. Captura do Orçamento Público (Poder de Barganha)
- Voto por Isenção: No cenário atual, a isenção de impostos virou uma ferramenta de chantagem política. A Bancada Evangélica entrega votos em projetos do governo em troca de mais benefícios fiscais.
- Consequência: O interesse público (o que é melhor para o país) é substituído pelo interesse corporativo das instituições religiosas. O Estado deixa de ser laico para se tornar um "balcão de negócios" com entidades de fé.
3. O Risco da "Teocracia Financeira"
- Independência Econômica vs. Controle Estatal: Com bilhões em renúncia fiscal e sem obrigatoriedade de prestar contas (transparência), as igrejas acumulam um poder econômico superior ao de muitos municípios brasileiros.
- Poder Paralelo: Esse capital é usado para comprar emissoras de TV, portais de notícias e financiar campanhas eleitorais massivas, criando um ciclo onde a religião domina a comunicação e a política, esvaziando o debate racional e laico.
4. Erosão da Proteção às Minorias
- A Moral como Lei: Quando o grupo religioso que detém o poder econômico e isenção fiscal é o mesmo que pauta as leis, as pautas morais (contra aborto legal, contra direitos LGBTQIA+, contra o feminismo) deixam de ser uma visão de mundo e passam a ser a regra do Estado.
- Exemplo Prático: O uso de slogans como "Deus, Pátria, Família" dentro do Congresso Nacional sinaliza que o Estado já não busca a pluralidade, mas sim a homogeneidade sob um único teto moral.
Conclusão Técnica
.
O Slogan “Deus, Pátria e Família”: Origens, Uso Político e Debates Contemporâneos no Brasil
1. Origens Históricas e Conexões com o Integralismo
O lema “Deus, Pátria e Família” foi popularizado no Brasil pelo movimento integralista, fundado por Plínio Salgado em 1932. Embora não tenha sido oficializado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, o slogan foi amplamente usado em manifestos, cartazes e discursos do movimento, que buscava unir nacionalismo, autoritarismo e conservadorismo religioso — elementos com paralelos no fascismo europeu da época (Carneiro, 2004; Janotti, 2010).
“O integralismo não era apenas um partido político, mas um projeto civilizatório que pretendia reordenar a sociedade a partir de valores morais, nacionais e religiosos.”
— Maria Luiza Tucci Carneiro, O Integralismo e a Política da Raça no Brasil (2004)
Estudos de José Murilo de Carvalho (2005) e Renato Janine Ribeiro (2018) destacam que o slogan funcionava como um “código moral” para legitimar a ordem social e rejeitar ideias liberais, socialistas e laicas. A retórica integralista foi, em parte, reativada na política brasileira contemporânea, especialmente a partir da ascensão de setores evangélicos e conservadores.
2. Uso Contemporâneo na Política Brasileira
Entre 2018 e 2024, o slogan foi retomado por políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG), Gustavo Gayer (PL-SP) e Damares Alves (ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos). Pesquisas do Datafolha (2023) e do IBOPE (2024) mostram que 68% dos eleitores evangélicos consideram “muito importante” que políticos defendam “valores cristãos”, e 57% associam o slogan a “defesa da família tradicional”.
“A retórica moralizante tem sido usada para mobilizar eleitores, mas também para legitimar políticas que restringem direitos de gênero e diversidade.”
— Renato Janine Ribeiro, A Política da Moralidade (2018)
Segundo o Observatório da Representação Política (2024), 42% dos deputados federais eleitos em 2022 se identificam como evangélicos — um aumento de 18% em relação a 2014. Esse grupo tem atuado fortemente em redes sociais, com estratégias de comunicação que misturam fé, nacionalismo e crítica a “ideologias de gênero”.
3. Crescimento de Templos e Isenções Fiscais
Segundo o IBGE (Censo Demográfico 2022), o Brasil tem mais de 350 mil templos evangélicos — um aumento de 62% em relação a 2010. O Pew Research Center (2023) aponta que 31% da população se declara evangélica, contra 22% em 2010.
A isenção fiscal de templos está prevista no art. 150, VI, “b” da Constituição Federal, que isenta “templos de qualquer culto” de impostos sobre bens, renda e serviços. No entanto, relatórios do TCU (2023) e da CGU (2024) indicam que:
- 27% das igrejas investigadas não prestaram contas de convênios públicos
- 18% das denúncias de lavagem de dinheiro envolvem recursos de instituições religiosas
- 41% dos templos não têm CNPJ ativo ou estão em situação irregular
“A isenção fiscal não é um privilégio, mas um direito constitucional. O problema está na falta de transparência e controle.”
— Marta Arretche, A Laicidade em Debate (2021)
Riscos da Instrumentalização Religiosa na Esfera Pública
A socióloga Marta Arretche (USP, 2021) alerta que a “política moralizante” — que coloca valores religiosos como base para decisões públicas — pode marginalizar minorias e dificultar o debate plural. Estudos do Centro de Estudos da Religião e Sociedade (CERS/USP, 2024) mostram que:
- 63% das leis propostas por parlamentares evangélicos entre 2020 e 2024 tratavam de temas morais (aborto, educação, gênero)
- 78% dessas propostas não foram acompanhadas por estudos técnicos ou impactos sociais
- 52% dos projetos foram rejeitados por comissões técnicas, mas aprovados por votação em plenário
“A laicidade não é inimiga da religião, mas da imposição de doutrinas religiosas como política pública.”
— Hannah Arendt, A Condição Humana (1958) — citada por Arretche (2021)
Laicidade, Pluralismo e Transparência
O Brasil não está em processo de teocracia — como definido por Max Weber (1922) ou Hannah Arendt (1958) —, mas há indícios de que a religião está sendo cada vez mais usada como ferramenta de mobilização política, com potencial para influenciar leis, orçamentos e políticas públicas de forma não transparente.
A laicidade do Estado exige que decisões públicas sejam tomadas com base em evidências, direitos humanos e pluralismo — e não em doutrinas religiosas. O desafio é garantir que o uso do slogan “Deus, Pátria e Família” não se torne um instrumento de exclusão, mas um convite ao debate ético e cívico.
Composição e Liderança
- Membros: Em março de 2026, a frente é composta por um número expressivo de parlamentares, superando numericamente blocos de oposição. A FPE inclui não apenas evangélicos, mas também católicos e parlamentares sem vinculação religiosa que se alinham às suas pautas.
- Presidência: O atual presidente da Frente Parlamentar Evangélica é o deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), eleito em fevereiro de 2025 com o apoio da ala conservadora e do ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Principais Denominações: O grupo possui forte presença de parlamentares ligados à Assembleia de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Batista.
Pautas e Atuação Política
- Defesa da Família e Valores Tradicionais: Oposição ao aborto, à legalização de drogas e a projetos relacionados à identidade de gênero.
- Educação e Segurança: Apoio à redução da maioridade penal e a modelos educacionais conservadores.
- Liberdade Religiosa: Defesa de imunidades tributárias para templos e da manutenção de símbolos religiosos em repartições públicas.
Dinâmica e Desafios Atuais
Imagem gerada por IA.
Referências Acadêmicas Completas
- Carneiro, Maria Luiza Tucci. O Integralismo e a Política da Raça no Brasil. São Paulo: Editora da USP, 2004.
- Janotti, Maria de Lourdes. Integralismo: A Voz da Nação. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
- Carvalho, José Murilo de. Cidadania no Brasil: O Longo Caminho. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.
- Ribeiro, Renato Janine. A Política da Moralidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
- Arretche, Marta. A Laicidade em Debate. São Paulo: Editora da FGV, 2021.
- Weber, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UnB, 1972 (tradução).
- Arendt, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1958.
- IBGE. Censo Demográfico 2022. Brasília: IBGE, 2023.
- Pew Research Center. Religion in Brazil: A Growing Evangelical Presence. Washington, DC: Pew, 2023.
- TCU. Relatório de Fiscalização de Convênios com Instituições Religiosas. Brasília: TCU, 2023.
- CGU. Relatório de Combate à Lavagem de Dinheiro em Instituições Religiosas. Brasília: CGU, 2024.
- Observatório da Representação Política. Perfil dos Parlamentares Eleitos em 2022. São Paulo: Observ
