Sobre o Presidente do TSE e seu vice "terrivelmente evangélico".

O atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é o ministro Kassio Nunes Marques e seu vice-presidente é o ministro André Mendonça.


Ele foi eleito vice-presidente do TSE em 14 de abril de 2026, ao lado do ministro Kassio Nunes Marques, que foi eleito presidente. Os dois comandam o Tribunal durante as Eleições Gerais de 2026. quenty.com.brAndré Mendonça ocupa cadeira no TSE desde junho de 2024 e assumiu a vice-presidência em 12 de maio de 2026


Detalhes da gestão

  • Posse: Ambos assumiram os cargos em 12 de maio de 2026, substituindo a ministra Cármen Lúcia.

  • Eleição: Foram eleitos pelo plenário da Corte em 14 de abril de 2026, com Nunes Marques recebendo 6 votos e Mendonça sendo o escolhido para a vice-presidência.

  • Função: A dupla comandará o tribunal durante as Eleições Gerais de 2026, que ocorrem em outubro, e permanecerão no cargo até maio de 2027.

  • Contexto: Esta é a primeira vez que dois ministros indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) ocupam simultaneamente as presidências do TSE. 

    Kassio Nunes Marques foi indicado por Bolsonaro e hoje está no TSE?

Sim, Kassio Nunes Marques foi indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2020 e é membro efetivo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde 2023.

Atualmente, ele ocupa a presidência do TSE, cargo assumido em 12 de maio de 2026, sucedendo Cármen Lúcia. Como presidente da corte, Nunes Marques é o responsável por comandar e organizar as eleições gerais de outubro de 2026. O ministro André Mendonça, também indicado por Bolsonaro, assumiu a vice-presidência do tribunal ao lado dele. 

Ele proibiu a veiculação do vídeo que explica o "bolsomaster", mesmo no vídeo só conter informações verídicas, porque?

A decisão liminar de Kassio Nunes Marques, de terça-feira (22/9), teve como fundamento, segundo o próprio tribunal, que o vídeo do perfil @lulapelaverdade atribuía conduta criminal a Flávio Bolsonaro sem, na análise preliminar, comprovação factual mínima — ou seja, o ministro entendeu que o conteúdo ultrapassou os limites da crítica política ao apresentar acusações de envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro como se fossem fatos comprovados, e não suspeitas.

O PL, que pediu a remoção, sustentou que o vídeo atribuía ao senador envolvimento em irregularidades sem comprovação. O material, em formato de "dossiê", relacionava investimentos do Rioprevidência no Banco Master ao financiamento do filme Dark Horse.

Por que a crítica? O vídeo citava diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro que já haviam sido verificados pela Polícia Federal. Críticos apontam que o conteúdo apenas reunia fatos públicos e que a remoção funciona como proteção política a um candidato do partido que indicou o próprio Nunes Marques ao STF. O caso ganhou mais força porque, no mesmo dia, o ministro rejeitou o pedido para retirar um vídeo de Flávio Bolsonaro que associava a vitória de Lula em 2022 a uma suposta comemoração de criminosos — o que reforça a acusação de padrão duplo na aplicação das regras eleitorais.

A decisão é provisória (liminar) e ainda será analisada pelo plenário do TSE.

A decisão liminar de Kassio Nunes Marques, de terça-feira (22/9), teve como fundamento, segundo o próprio tribunal, que o vídeo do perfil @lulapelaverdade atribuía conduta criminal a Flávio Bolsonaro sem, na análise preliminar, comprovação factual mínima — ou seja, o ministro entendeu que o conteúdo ultrapassou os limites da crítica política ao apresentar acusações de envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro como se fossem fatos comprovados, e não suspeitas.

O PL, que pediu a remoção, sustentou que o vídeo atribuía ao senador envolvimento em irregularidades sem comprovação. O material, em formato de "dossiê", relacionava investimentos do Rioprevidência no Banco Master ao financiamento do filme Dark Horse.

Por que a crítica? O vídeo citava diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro que já haviam sido verificados pela Polícia Federal. Críticos apontam que o conteúdo apenas reunia fatos públicos e que a remoção funciona como proteção política a um candidato do partido que indicou o próprio Nunes Marques ao STF. O caso ganhou mais força porque, no mesmo dia, o ministro rejeitou o pedido para retirar um vídeo de Flávio Bolsonaro que associava a vitória de Lula em 2022 a uma suposta comemoração de criminosos — o que reforça a acusação de padrão duplo na aplicação das regras eleitorais.

A decisão é provisória (liminar) e ainda será analisada pelo plenário do TSE.

A análise das decisões dos dois ministros nas eleições de 2026 revela um padrão de contradições que justifica a suspeita de parcialidade. Abaixo, o panorama organizado:


Kassio Nunes Marques (presidente do TSE)

A contradição do mesmo dia (22/09)

No mesmo dia, KNM proferiu duas decisões com lógicas opostas:

VídeoDecisãoFundamentação
@lulapelaverdade → associa Flávio ao MasterRemovido (24h)"Associação a pessoas investigadas ou a fatos criminosos, sem comprovação concreta, possui aptidão para atingir honra e imagem"
Campanha de Flávio → associa Lula a comemoração de criminososMantido no ar"Elementos não eram suficientes para demonstrar que o vídeo utilizava conteúdo falso ou descontextualizado"

A assimetria é evidente: no caso de Flávio, a mera associação a investigações já configura dano à honra; no caso de Lula, a associação a criminosos não chega a ser "falsa ou descontextualizada" o bastante para remoção. O critério de "comprovação" é aplicado de forma invertida.

Vídeo de Lula no Alvorada (22/09)

No mesmo dia, KNM também mandou Lula remover um vídeo sobre o caso Master gravado no Palácio da Alvorada. A fundamentação formal foi "cenário não neutro" (bandeira nacional, estandarte institucional). Porém, a decisão foi além: determinou à Presidência da República que entregasse registros de acesso da equipe técnica, identificação de servidores, equipamentos e comprovação documental do pagamento da produção. Isso extrapola a questão do cenário e entra em terreno de auditoria/assédio à campanha.

Vídeo de Flávio que associa Lula ao PCC e CV (26/07 → 17/08)

KNM rejeitou o pedido do PT para remover um vídeo de Flávio que vinculava Lula ao PCC e ao Comando Vermelho, invocando liberdade de expressão. O plenário derrubou sua decisão por 5 a 2, determinando a retirada. Votaram pela remoção: Estela Aranha, Ricardo Villas Bôas Cueva, Dias Toffoli, Floriano de Azevedo Marques e Antonio Carlos Ferreira. KNM e André Mendonça ficaram vencidos.

Conflito de interesse

O portal Painel Político destaca o título: "Citado no caso Master, Nunes Marques manda remover vídeo sobre Flávio" — ou seja, o próprio ministro é citado nas investigações do caso Banco Master que ele está decidindo em liminar. 

André Mendonça (vice-presidente do TSE)

Decisões contra Lula

DataDecisão
18/08Mandou Lula, Jerônimo e o PT remover trechos de discurso com pedido de voto em convenção na Bahia (propaganda antecipada)
01/09Proibiu Lula de exibir "Rap do Silva" sem nome de Alckmin (questão formal de propaganda)
05/08Mandou Lula abrir gastos com publicidade do governo (decisão a pedido do PL)
15/08Determinou que o PT entregasse registros contábeis do 8º Congresso e do "Porta-Vozes do Lula" — derrubado pelo plenário (5 a 2), que mandou redistribuir por "inequação na distribuição"

Decisões a favor de Lula

DataDecisão
19/06Proibiu o PL de impulsionar vídeo que associava Lula ao PCC e CV
19/06Ordenou remoção de publicações de Marcos do Val e Sóstenes Cavalcante que associavam Lula e PT a Daniel Vorcaro

A contradição de Mendonça

Mendonça proibiu o PL de impulsionar o vídeo que liga Lula ao crime (19/06), mas em 26/07 votou para manter o mesmo vídeo no ar (sem impulsionamento), acompanhando KNM. E em 17/08 ficou vencido no plenário (5 a 2) quando a Corte mandou retirar o vídeo.

Além disso, a liminar dele contra o PT (registros contábeis) foi derrubada pelo plenário por vício de distribuição — o que a CNN Brasil descreveu como exposição do "isolamento" dos dois.


Síntese analítica

O padrão que emerge é o seguinte:

  1. Duplo critério na aplicação da "comprovação": acusação contra Flávio = dano à honra sem prova; acusação contra Lula = crítica política legítima.

  2. Liminares seletivas no mesmo dia: remover o que incomoda o campo bolsonarista e manter o que o favorece, com fundamentos jurídicos que se anulam mutuamente.

  3. Conflito de interesse declarado: KNM é citado no caso Master que ele julga.

  4. Isolamento no plenário: as reversões de 17/08 (5 a 2 em dois casos) mostram que a maioria da Corte não acompanha a linha dos dois, o que reforça a leitura de que as liminares monocráticas refletem posição pessoal e não jurisprudência consolidada.

  5. Ambos indicados por Bolsonaro: a coincidência de nomeação e de alinhamento decisório é um fato objetivo que alimenta a suspeita de captação, ainda que não constitua, por si só, impedimento legal.

A resposta do TSE como corpo colegiado (as reversões de 5 a 2) é, paradoxalmente, o que confirma o diagnóstico de parcialidade nas liminares individuais: se a linha dos dois fosse a correta, o plenário não a reverteria de forma tão consistente.

Ressalva: todas as decisões são liminares (provisórias) e ainda serão submetidas ao plenário. O caso do vídeo @lulapelaverdade e o do Alvorada ainda não tiveram julgamento colegiado. 

O contrato de R$ 427 milhões

Um documento incluído no arquivo que a Polícia Federal enviou ao STF revela que o Banco Master firmou um contrato de honorários de êxito com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia — do qual é sócia Camilla Ramos, esposa do desembargador federal Newton Ramos (TRF-1), pessoa muito próxima de Kassio Nunes Marques.

O contrato previa 5% de honorários sobre o valor obtido em 12 ações do setor sucroalcooleiro em que o Master era credor, com valor de face estimado em R$ 8,5 bilhões em precatórios. 5% disso = ~R$ 427 milhões — o "quase meio bilhão" que você ouviu.

O que as mensagens mostram

No celular de Daniel Vorcaro, os assessores do banqueiro se referiam a Newton e Camilla Ramos como "Turma do KN" — iniciais de Kassio Nunes Marques. As conversas também registram que Newton Ramos atuava como intermediário de pedidos atribuídos a KNM junto a Vorcaro (hospedagens no Fasano, camarotes, etc.).

A posição de KNM

Em nota, o ministro afirmou que:

  • Nunca votou a favor do Banco Master;

  • Nunca trocou mensagens com Vorcaro;

  • Nunca autorizou ninguém a falar em seu nome;

  • Classificou a divulgação como "tentativa de criar narrativa para incriminá-lo".

O que está comprovado vs. o que não está

ComprovadoNão comprovado (até agora)
Existe o contrato de 5% sobre 12 processosSe os R$ 427 mi chegaram a ser pagos
O Master era parte nos 12 processosQuanto dos R$ 8,5 bi foi efetivamente recuperado
Mensagens usam "Turma do KN" para Newton/CamillaSe houve relação causal entre benefícios e atos jurisdicionais
Newton Ramos intermediou pedidos a VorcaroSe KNM sabia ou autorizou

Por que isso é relevante para o TSE

O ponto mais sensível: KNM é presidente do TSE e está decidindo liminares sobre vídeos que tratam exatamente do caso Master e de Flávio Bolsonaro — enquanto o próprio ministro é citado nas investigações como figura central de uma rede de favorecimento. A coincidência temporal (as mensagens foram divulgadas na segunda, 14/09; a liminar removendo o vídeo sobre Flávio saiu na terça, 22/09) é o que alimenta a leitura de que a atuação dele na corte eleitoral está comprometida.

Ressalva: o montante de R$ 427 mi é um teto potencial (honorários condicionados ao êxito), não uma transferência já realizada. A investigação segue em curso.

O caso André Mendonça: quando o julgador é parte

Uma análise dos laços financeiros, institucionais e circunstanciais que colocam o ministro no centro do caso Master


1. O ponto de partida: a coincidência que não é coincidência

Em 14 de março de 2025, o ministro André Mendonça recebeu Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por duas horas na sede do Instituto Iter — entidade fundada pelo próprio ministro em São Paulo. No dia seguinte, 15 de março, Mendonça pediu vista de um julgamento no STF que discutia limites de preços de serviços funerários em São Paulo, caso diretamente ligado à Cortel, concessionária de cemitérios municipais com suposto vínculo societário com o Master.

A articulação do encontro não foi casual. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram que Ciro Soares, então advogado do Master, e o deputado Cezinha de Madureira levaram semanas para agendar a reunião. Em um áudio de 8 de fevereiro, Soares diz a Vorcaro: "O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. (...) Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda."

Mendonça confirma o encontro e afirma que o tema foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, sobre precatórios da Agroindustrial Tabu, usina do setor sucroalcooleiro. Porém, o áudio de Soares sugere que a intenção era discutir o caso Master. A versão do ministro e a versão das mensagens coexistem sem que nenhuma tenha sido definitivamente desmentida.


2. O Instituto Iter: a máquina financeira

2.1 Estrutura e números

O Iter é uma sociedade anônima fechada, com capital social de R$ 50.000, que iniciou atividades em novembro de 2023. Mendonça e sua esposa detinham 77,5% das cotas. O ministro era o rosto institucional: aparecia no site, dava entrevistas e representava a entidade em eventos.

Os números dos contratos com o poder público variam conforme a apuração, mas todos os levantamentos convergem para o mesmo quadro:

FonteContratosValorPeríodo
Poder36055R$ 10,85 miNov/2023 – 2026
Revista Fórum55~R$ 10,8 miNov/2023 – 2026
UOL52R$ 8,2 mi2024 – 2026
EM28R$ 10,7 miNov/2023 – 2026

98,2% dos contratos foram firmados sem licitação (42 por inexigibilidade, 3 por dispensa, 9 por contratação direta). Os contratos estão distribuídos por 14 estados.

A aceleração é eloquente: em 2024, o Iter tinha 10 contratos somando R$ 115 mil. Em 2025, saltou para 32 contratos de R$ 4 milhões. A transformação de um instituto recém-criado em um fornecedor recorrente do Estado brasileiro em 12 meses é o tipo de crescimento que, em auditoria, gera alerta.

2.2 O contrato com o Cioeste

O Cioeste (Consórcio Intermunicipal do Oeste Paulista) — mantido com verba de municípios — foi um dos maiores contratantes do Iter. A CartaCapital registrou que o instituto "lucra com município que tomou prejuízo no Banco Master". Mendonça, questionado sobre a situação de relatar o inquérito do Master e ser sócio de um instituto financiado por uma prefeitura que tentou socorrer o banco, não respondeu.

2.3 A Cedro e o aporte de R$ 5,2 milhões

Em abril de 2024, a Cedro Participações, de Lucas Kallasex-parceiro de negócios de Vorcaro — firmou com o Iter um contrato de mútuo conversível no valor total de R$ 5,9 milhões, dos quais R$ 5,2 milhões foram efetivamente repassados. O mútuo conversível permite transformar o empréstimo em participação societária.

O CEO do Iter, Victor Godoy Veiga, afirmou que o dinheiro da Cedro bancou os "custos operacionais iniciais" da entidade. Até agora, apenas 5,3% do valor foi devolvido.

A relação não se limitou ao capital. Em agosto de 2025, Mendonça viajou em helicóptero da Cedro para participar de um evento jurídico em Itabira (MG). O grupo organizou todo o trajeto: embarque no hangar em Belo Horizonte, voo e deslocamento terrestre até Itabira.

A Cedro afirma que Vorcaro "jamais teve qualquer relação societária ou vínculo empresarial" com a companhia. Mas o fato de Kallas ter sido parceiro de negócios do banqueiro é um dado objetivo que coloca o aporte em uma zona de ambiguidade: quem financia o instituto de um ministro que é relator do caso de um ex-sócio do financiador?

2.4 A saída de Mendonça

Em 3 de setembro de 2026, após a divulgação dos contratos, Mendonça anunciou que deixou a sociedade do Iter. A instituição será transformada em entidade sem fins lucrativos. O ministro afirmou que "jamais auferiu lucro" e que permanecerá como professor. A coincidência temporal — a saída anunciada no mesmo dia em que o UOL publicou os R$ 8,2 milhões e o Poder360 os R$ 10,8 milhões — é interpretada por críticos como manobra de proteção.


3. O caso dos cemitérios: a sequência que fala por si

A cronologia do caso Cortel é o ponto mais sensível:

DataEvento
13/03/2025Flávio Dino profere decisão determinando medidas para coibir preços abusivos das concessionárias funerárias de SP
14/03/2025Mendonça recebe Vorcaro no Iter, em São Paulo (2 horas)
15/03/2025Mendonça pede vista do julgamento (suspende o processo)

Dino, em decisão de 15 de setembro de 2026, escreveu que "havia elevados interesses de fundos geridos pelo Banco Master exatamente em temas atinentes à privatização de cemitérios". O ministro acusou Mendonça de beneficiar o Master, beneficiar seu irmão (que ocupava cargo na prefeitura de São Paulo) e obter recursos para o instituto — tudo em uma sequência de 48 horas.

Mendonça ainda não se manifestou publicamente sobre essa acusação específica. 

4. O terno de R$ 26.430

Mensagens divulgadas sugeriam que Vorcaro ou seus lobistas teriam bancado ternos para Mendonça em uma alfaiataria de luxo. O ministro respondeu apresentando duas notas fiscais da Alegrete Alfaiataria, no valor total de R$ 26.430, emitidas em nome de sua esposa em 8 e 28 de fevereiro de 2025.

A resposta é tecnicamente válida — as notas provam que a esposa comprou ternos. Mas não desmente que alguém tenha intermediado a compra ou oferecido pagá-la. A suspeita original vinha de conversas em que um advogado ligado a Vorcaro mencionava a alfaiataria. O fato de as notas estarem em nome da esposa e não do ministro adiciona uma camada de opacidade.


5. A condução dos inquéritos: o relatório da PF

5.1 O que a PF apontou

A Polícia Federal produziu um relatório de inteligência de 50 páginas analisando a atuação de Mendonça como relator das operações Compliance Zero (Master) e Sem Desconto (INSS). Os principais pontos:

  • Interferência na condução investigativa: Mendonça teria atuado como "investigador" em vez de "julgador", comprometendo a cadeia de custódia da prova.

  • Direcionamento político: interesse específico em abrir apurações contra Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre, enquanto não dava o mesmo encaminhamento a indícios sobre Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

  • Participação em negociações de delação: a PF cita "reiteradas reuniões" em que o ministro indagou sobre o estágio das negociações e os elementos trazidos pelos colaboradores. A lei brasileira proíbe juízes de participar desse tipo de negociação.

  • Acesso antecipado a provas: a PF manifestou preocupação com pedido de Mendonça para acesso ao acervo de provas antes da conclusão das diligências. 

5.2 A resposta de Mendonça

Mendonça classificou os relatórios como "apócrifos e sem valor probatório" e acusou Moraes de "distorcer" o teor dos documentos. Pediu o arquivamento do procedimento contra si e a investigação de Moraes por denunciação caluniosa e abuso de autoridade.

5.3 A crise institucional

O episódio gerou a crise mais grave já vista no STF: troca de acusações entre ministros, pedido de investigação de um por outro, e a questionamento sobre a validade das investigações do Master. A ala que apoia Moraes defende que Edson Fachin tire temporariamente Mendonça da relatoria. Mendonça, porém, afirmou a assessores que não pretende deixar o caso.

6. As decisões no TSE: o padrão eleitoral

No TSE, onde Mendonça atua como vice-presidente, o padrão de decisões que o beneficiam ou prejudicam o governo se repete:

DecisãoAlvoFundamentação
Manter vídeo associando Lula ao PCC/CV (26/07)Lula"Liberdade de expressão"
Remover trechos de discurso de Lula na Bahia (18/08)Lula"Propaganda antecipada"
Proibir "Rap do Silva" sem nome de Alckmin (01/09)LulaQuestão formal de propaganda
Mandar Lula abrir gastos com publicidade (05/08)LulaPedido do PL
Mandar PT entregar registros contábeis (15/08)PTDerrubado pelo plenário (5 a 2)
Proibir PL de impulsionar vídeo contra Lula (19/06)PLConteúdo falso
Vencer no plenário (5 a 2) em 17/08Isolamento

O dado mais revelador: em 17 de agosto, o plenário do TSE derrubou duas decisões de Mendonça por 5 a 2. O isolamento do ministro na Corte é, paradoxalmente, a prova de que sua linha não é a jurisprudência consolidada — é uma posição pessoal.


7. A síntese: por que a suspeita é estrutural, não retórica

A suspeita sobre Mendonça não se sustenta em um único fato, mas na convergência de múltiplos vetores:

  1. Conflito de interesses financeiro: sócio de um instituto que recebeu R$ 5,2 milhões de ex-parceiro de Vorcaro e R$ 10,8 milhões de contratos públicos, enquanto é relator do caso Master.

  2. Conflito de interesses institucional: o instituto contratava com o Cioeste, entidade ligada a municípios que tentaram socorrer o Master.

  3. Sequência temporal comprometida: encontro com Vorcaro → pedido de vista do caso Cortel → 24 horas.

  4. Violação de norma processual: participação em negociações de delação, ato vedado a juízes.

  5. Tratamento seletivo: foco em Moraes e Alcolumbre, silêncio sobre Toffoli e KNM.

  6. Padrão eleitoral: decisões no TSE que beneficiam o campo bolsonarista e prejudicam o governo, com reversões consistentes pelo plenário.

  7. Reação defensiva: saída do Iter no dia da publicação dos contratos, apresentação de notas fiscais no dia da suspeita do terno, quebra de sigilo do inquérito no dia em que a crise com Moraes escalou.

Nenhum desses fatos, isoladamente, constitui prova de crime. Mas a densidade da rede de conexões — financeira, temporal, institucional e decisória — é o que transforma a suspeita em questão legítima.


8. O que Mendonça afirma

É preciso registrar o outro lado:

  • Sobre o encontro: confirma, diz que foi por iniciativa de Vorcaro, que o tema foi a STP 976 e que foi "contrário à posição defendida pelo ex-banqueiro".

  • Sobre o Iter: "jamais auferiu lucro", a saída foi para "evitar ruídos", a entidade será sem fins lucrativos.

  • Sobre o terno: apresentou as notas fiscais.

  • Sobre os relatórios da PF: "apócrifos e sem valor probatório".

  • Sobre a relatoria: não pretende deixar o caso Master.

Essas negações são seu direito. Mas a força da suspeita reside justamente no fato de que cada uma delas é compatível com a versão dos documentos — ou seja, não há como desmenti-las com o material público atual, o que mantém o caso em zona de incerteza que, para um ministro que julha o caso de R$ 47,3 bilhões, é uma posição institucionalmente insustentável.


9. Conclusão

O caso André Mendonça não é (apenas) a disputa entre dois ministros do STF. É a exposição de um sistema de incompatibilidades que a Constituição e o Código de Processo Penal existem para impedir: um juiz que financia seu instituto com dinheiro de ex-parceiro da parte investigada, que recebe a parte no próprio instituto, que no dia seguinte suspende o processo que a parte tem interesse em manter parado, que participa de negociações de delação, que trata os investigados conforme o alinhamento político, e que no TSE aplica a lei eleitoral com duas réguas.

A pergunta que o STF precisa responder — e que a sociedade tem o direito de fazer — não é se Mendonça é inocente ou culpado. É se um ministro com esse conjunto de conexões pode continuar decidindo o caso que o envolve. A resposta, pela lógica do direito, é não. A resposta, pela política, ainda está em aberto.


Ressalva: todas as informações acima estão em fase de apuração. Os pedidos de investigação (Moraes contra Mendonça, Dino sobre o Iter) ainda não produziram decisão colegiada. As negações de Mendonça estão registradas. O presente texto apresenta os fatos documentados e os argumentos de quem sustenta a suspeita, sem pretender esgotar a defesa do ministro. 


Leia também:

A relação entre André Mendonça, Acton Institute, Atlas Network, Dominionismo e a Teologia dos Sete Montes.
Leia em:

https://andredaguiar.blogspot.com/2026/09/a-relacao-entre-andre-mendonca-acton.html




Leia também:

O Fio

Da Atlas à Lagoinha, do NED ao STF — como o Brasil foi desenhado para não ver.

A frase que gerou o livro. A metáfora do fio.
"Tem muita gente que nem sabe, que não sabe". - Não é burrice, é design. E o design pode ser desenhado de volta.

Em: https://andredaguiar.blogspot.com/2026/09/o-fio.html


leia também:
A Relação entre Milícias e Igrejas Evangélicas no Rio de Janeiro:

Poder, Território e Religião em Tempos de Crise Democrática

Em: https://andredaguiar.blogspot.com/2026/03/a-relacao-entre-milicias-e-igrejas.html 

Outras sugestões de leitura nos títulos clicáveis  abaixo:




A Máquina da Mentira: Como a Extrema Direita Está Recriando o Golpe de 2016 para 2026. - O Mapeamento do Golpe Continuado.





A Herança Maldita: O Vírus Desinformacional e o Custo do Apodrecimento Social.



Teocracia Armada: O Projeto de Poder de Flávio Bolsonaro e o Fim da Laicidade no Brasil

A laicidade no Brasil está valendo?

Há Drogas e, drogas. - A Neurobiologia do Caos.

Educação, Informação, Conhecimento e Sabedoria: O Caminho Natural para o Ateísmo.

Ciência, Educação e Secularização: Por que os Estudiosos Tendem a Ser Menos Religiosos