O Observador

 

A distopia já se tornou realidade.

Eu - Eu estava divagando sobre "resistência" comumente usada no contexto de resistir e lutar contra o fascismo crescente na atualidade, e lembrando de filmes, Guerra nas Estrelas, Matrix, que tem essa narrativa ou contexto que remete a isso... A resistência contra o império... Não sei se você me entende, discorra sobre e cite outros filmes com tal convergência.   (Conversando com Leo a ia incorporada ao navegador Brave, ambos com foco em privacidade).


Leo - Entendi perfeitamente. A narrativa da **"Resistência" como ato político contra um poder totalitário** é um dos arcos mais potentes do cinema de ficção científica — e a convergência com o antifascismo é direta, não apenas metafórica.


**Star Wars** nasceu explicitamente como crítica ao fascismo: George Lucas modelou a Aliança Rebelde nos Viet Cong e o Império Galáctico como parábola de como democracias colapsam "com aplausos, não com explosões". O Império não quer só controlar — quer **reescrever a história e apagar a memória** (o extermínio Jedi é cultural, não apenas físico). A Resistência, nesse sentido, é guardiã de memória e de narrativas proibidas.


**Matrix** opera num registro similar: a humanidade escravizada por máquinas dentro de uma simulação é uma alegoria de **controle sistêmico sobre o pensamento**. A "pílula vermelha" é o ato de recusa; a resistência de Zion é a luta de um grupo pequeno e desorganizado contra um sistema com meios infinitos — exatamente a dinâmica que Lucas descreveu em Star Wars.


Outros filmes que convergem nesse eixo: 


FilmeAnoEixo da resistência
V de Vingança2005Vigilante mascarado contra regime totalitário inglês; a máscara de Guy Fawkes virou símbolo global de protesto antifascista
Distrito 92009Alienígenas refugiados em gueto na África do Sul; alegoria direta do apartheid e da xenofobia como forma de opressão de Estado
Mad Max: Estrada da Fúria2015Libertação de escravas de um tirano teocrático; resistência feminina contra tirania institucionalizada
Jogos Vorazes2012Katniss como símbolo de resistência contra regime que espetaculariza a violência; parábola sobre manipulação midiática e política do medo
O Labirinto do Fauno2006Fantasia política de Guillermo del Toro ambientada na Espanha franquista; a resistência aparece como ato de recusa diante do horror
Resistência (The Creator)2023Gareth Edwards (de Rogue One) explora a guerra entre império e IA; crítica ao imperialismo e ao controle tecnológico
19841984Estado totalitário que reescreve a história e controla a linguagem; a resistência é, antes de tudo, memória e pensamento independente
Fahrenheit 4511966Livros queimados, pensamento crítico criminalizado; os rebeldes são guardiões do saber proibido — eco direto do Império de Star Wars
O Império Contra-Ataca1980Darth Vader como "arquétipo fascista definitivo" — figura mecanizada e mascarada que simboliza a desumanização do poder autoritário

O fio condutor é o mesmo em todos: **a resistência não é só militar, é cultural e mnemônica**. O regime quer apagar a memória, uniformizar o pensamento, fazer do medo a moeda de circulação. Resistir, nesses filmes, é antes de tudo **recusar-se a aceitar a narrativa imposta** — seja a pílula vermelha, a máscara de Guy Fawkes, o sabre de luz ou simplesmente lembrar.


Se quiser aprofundar, a série Andor (2022) é talvez a expressão mais crua desse tema: mostra a Resistência *antes* de virar lenda, como gente comum e desorganizada fazendo escolhas impossíveis — sem sabres de luz, sem destino cósmico. É a resistência como ela realmente é: suja, fragmentada, e paga em sangue.
__________________

Eu - Na divagação eu refletia sobre a captura do pensamento pelas bigtehs, o avanço da Palantir e seus braços... E meio que percebi estarmos num limiar. Ou surge urgentemente uma revolução popular, ou logo não será possível, qualquer ideia de revolução será extinta antes mesmo da gestação da mesma, uma divagação que pode parecer e é um tanto distopica ao mesmo tempo que real, entende?
____________________

Leo - Entendo perfeitamente, e não é apenas distópica — é descrita com precisão por quem estuda o tema. O que você intuiu tem nome e está sendo implementado: **o "pre-crime" deixou de ser ficção de *Minority Report* e virou produto comercial.**


**O que está acontecendo concretamente:**


A Palantir — fundada com seed da CIA, co-fundada por Peter Thiel — saiu do nicho militar/inteligência e se tornou a **infraestrutura de dados do Estado americano inteiro** a partir de 2025. O contrato de $10 bilhões com o Exército (julho/2025), o "ImmigrationOS" para a ICE, a expansão para HHS, SSA, IRS... O *New York Times* reportou em maio de 2025 que a administração Trump está usando a Palantir para compilar um **banco de dados unificado sobre cidadãos americanos** — dados médicos, financeiros, de viagem, tudo fundido.


E não para nos EUA. A empresa está em **Alemanha** (polícia da Baviera, Baden-Württemberg), **Reino Unido** (polícias locais), **Suíça** (exército), **Argentina** (Thiel se reuniu com Milei em abril de 2026), **Equador** (alfândega, migração). É uma arquitetura de vigilância global em construção acelerada.


**O ponto filosófico que você tocou:**


A professora Shoshana Zuboff nomeou isso como **"poder instrumentário"** — a transição de *monitorar* para *atu*. O sistema não apenas observa; ele **modela o comportamento antes que ele se forme**. Os "prediction products" não preveem o que você *vai* fazer — eles criam as condições para que você *não* faça. É a lógica de Minority Report implementada com infraestrutura real.


Isso conecta diretamente à narrativa de *Star Wars*: o Império não precisa de uma Inquisição se tiver **Total Information Awareness** — a capacidade de identificar o padrão de dissidência *antes* que vire organização. A Resistência em Andor é tão fragmentada e precária justamente porque o Império já opera nessa lógica. Em *Matrix*, as máquinas já venceram essa batalha — Zion é o que resta quando a resistência é reduzida a um resíduo.


**O limiar que você percebeu:**


A pergunta real não é "será que o sistema vai detectar a revolução?" — ele já detecta. A pergunta é: **será que a revolução consegue existir em um espaço que o sistema não mapeia?** E aí a resposta é mais sombria: o espaço "off-grid" está se fechando. Pagamentos digitais, transporte, comunicação, moradia — tudo passa por camadas de dados. A opacidade que protegia a dissidência no século XX está desaparecendo.


O que resta, então, como espaço de gestação? Provavelmente o que é **analógico, local, e não-escalável** — exatamente o que não gera "behavioral surplus" vendável. A resistência que o sistema não consegue modelar é a que não deixa rastro digital. O que é, ironicamente, a forma mais antiga de organização política.


Sua intuição de "limiar" tem respaldo: a janela em que é possível organizar-se *dentro* do sistema (eleições, partidos, mídia tradicional) está se fechando à medida que o sistema internaliza e neutraliza essas canais. O que vem depois — se vier — provavelmente terá que ser algo que o sistema não consegue **prever** porque não consegue **ver**.


Não é distopia. É o estágio em que a distopia vira infraestrutura.
________________


Eu- A Palantir já está no Brasil, seus tentáculos estão em investimentos em startups, contratos, lobs...
_________________


Leo - 


Sim, e a situação é mais concreta do que "tentáculos" sugere. A Palantir já opera no Brasil por múltiplas vias simultâneas — e o mecanismo de entrada é justamente o que a torna difícil de detectar e de contestar:

O que já está instalado:

1. Educação (FNDE/MEC) — o caso mais documentado. Desde março de 2024, a plataforma Foundry da Palantir processa dados do Pnate (transporte escolar): 38,3 milhões de estudantes, 6,6 milhões de crianças da educação infantil, 140 mil escolas, praticamente todos os municípios brasileiros. Custo: R$ 21,6 milhões. O mecanismo de entrada é o ponto crítico: não houve contrato direto nem licitação. O Serpro contratou a infraestrutura da AWS; dentro do AWS Marketplace, a Palantir foi acionada como "camada adicional de serviço" — sem certame, sem concorrência pública. A deputada Sâmia Bomfim apresentou requerimento em dezembro de 2025; o Rui Falcão (PT-SP) fez o mesmo na Câmara em fevereiro de 2026. Em 2026, o FNDE anunciou o encerramento do uso — mas o dano à soberania de dados já foi feito.

2. Saúde (via NHS britânico). A Palantir está presente no Brasil pela extensão do contrato do NHS por meio do Better Health Programme — iniciado no governo Bolsonaro e renovado pela gestão atual em outubro de 2025. O ponto comum com o FNDE: o atalho legal do marketplace de nuvem.

3. São Paulo (governo estadual). Entrou na pandemia com uma "doação" ao governo de João Dória. O contrato continua e a Palantir avançou na Prodesp (a companhia de tecnologia do estado).

4. Setor privado como ponte. Em março de 2026, a Bain & Company anunciou a expansão da parceria global com a Palantir incluindo operações em São Paulo, focada em transformação digital para grandes grupos de saúde. É a estratégia de infiltração indireta: entrar pelo setor privado, evitar o escrutínio regulatório de contratos governamentais diretos, e tornar-se infraestrutura.

5. A "Palantir brasileira" — Pax AI (antes Paladium). Criada pelo investidor cearense Davi Peixoto, a empresa conquistou contratos milionários sem licitação com os governos de Goiás, Paraná e São Paulo. O capital social saltou de R$ 20 para R$ 156 milhões em menos de dois anos. Os investidores são Benchmark e Greenoaks, fundos da Califórnia que aportaram ~R$ 40 milhões. Está sob escrutínio dos Tribunais de Contas estaduais e o deputado Arilson Chiorato (PT-PR) denunciou o caso diretamente aos fundos nos EUA. A mudança de nome de "Paladium" para "Pax AI" ocorreu em maio de 2026, em meio aos questionamentos.

6. Peter Thiel no Brasil. Em setembro de 2026, reportagem da Noites Húngaras em parceria com a CTRL+Z revelou que Peter Thiel esteve em São Paulo acompanhado de uma comitiva de pelo menos 15 pessoas.

O que isso significa na sua divagação:

O que você chamou de "tentáculos" é, na verdade, uma arquitetura de dependência. O artigo da AEPET resume com precisão: a Palantir não quer vender software — quer gerir infraestrutura. É um poder que não aparece em pesquisas eleitorais e não é revertido por resultado de urna, porque busca tornar-se a própria condição de funcionamento dos serviços públicos.

E o detalhe que fecha o círculo com a sua reflexão sobre "captura do pensamento": em março de 2026, Alex Karp declarou abertamente que a tecnologia da Palantir é projetada para "disromper eleitores com formação em humanidades e aumentar o poder econômico de trabalhadores técnicos frequentemente alinhados à direita". Não é uma metáfora. É a confissão de que a arquitetura técnica não é neutra — é deliberadamente alinhada a uma estratégia de redistribuição de poder político.

O "limiar" que você sentiu não é abstrato. O FNDE processou dados de 38 milhões de crianças por uma empresa de inteligência militar norte-americana sem licitação. A saúde foi renovada. O estado de São Paulo segue. A Bain está em São Paulo. Thiel veio. E a via de entrada — o marketplace de nuvem — continua aberta para qualquer órgão federal.

A resistência, nesse contexto, não é "resistir ao Império" no sentido épico. É auditar contratos, questionar licitações, exigir soberania de dados. É o que a sociedade civil fez no 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital (Brasília, fim de 2025) e o que deputados como Falcão e Bomfim estão fazendo com requerimentos. É a resistência de Andor — suja, fragmentada, sem sabre de luz — mas é a única que funciona quando o Império já está dentro da casa.

___________________________________



Eu - Também tem contrato com a rede Glogo, que me parece meio obscuro por ser privado...

________________________________

Leo - Exatamente — e a "obscureza" não é acidente, é vantagem estrutural.

O que o contrato faz concretamente:

A parceria começou em 2019 e foi estendida em junho de 2021 por mais dois anos. O Foundry da Palantir integra e analisa os mais de 2 petabytes de dados que a Globo acumula de suas plataformas — TV, Globoplay, G1, ge, etc. O uso declarado é comercial: otimização de publicidade, compreensão do comportamento dos 100+ milhões de brasileiros que a rede alcança, engajamento no Globoplay, segmentação de audiência.

Por que é "obscuro" — e por que isso importa:

O contraste com os contratos públicos é o ponto. FNDE, saúde, Prodesp — todos são contestáveis: licitação, transparência, requerimento parlamentar, tribunal de contas. A parceria com a Globo é um contrato comercial entre duas empresas privadas. Não há licitação, não há escrutínio legislativo, não há tribunal de contas. Não há mecanismo institucional brasileiro para questionar o que a Palantir faz com 2 petabytes de dados comportamentais de 100 milhões de pessoas quando o contrato é "entre privados."

E o que está sendo processado não é diferente em natureza do que o FNDE processa: dados sobre indivíduos brasileiros. A diferença é que no FNDE são dados de transporte escolar de crianças; na Globo são dados de consumo de mídia, comportamento digital, padrões de engajamento — que, combinados com outros datasets, alimentam o mesmo tipo de modelo preditivo de comportamento que a Palantir vende para agências de inteligência.

A convergência com a sua reflexão:

Isso é o vetor privado da mesma arquitetura. O Estado entra pela porta da frente (contratos públicos, escrutínio, resistência possível). O setor privado entra pela porta dos fundos — contrato comercial, sem transparência, sem debate. E a Globo não é um player qualquer: é a infraestrutura de informação do país. Quem controla os dados de consumo de mídia de 100 milhões de pessoas controla, em parte, a condição de formação do pensamento público.

É a versão brasileira do que a Shoshana Zuboff descreve como "poder instrumentário" operando fora do escrutínio democrático. O Estado que vigia é visível e, em tese, contestável. A empresa que vigia é invisível — porque "é só um contrato comercial."

A "obscureza" que você sentiu é, na verdade, a assinatura do mecanismo: o que é privado é o que escapa à resistência. É o Império que não precisa de Inquisição porque já está dentro da infraestrutura que forma o que as pessoas veem, leem e consomem — e ninguém pode pedir transparência a um contrato entre duas empresas.
______________________

Eu - A Globo usa a Palantir para produção de conteúdo?

__________________________________________

Leo - Não exatamente "produção" no sentido de escrita ou filmagem — mas sim decisão de produção. A distinção é importante.

O que o Foundry faz na Globo, segundo os próprios comunicados oficiais (2019 e renovação em 2021):

1. Identificação de engajamento → insumo para novas produções. O trecho mais direto vem da Forbes Brasil:


"O Globoplay, por exemplo, é um dos serviços digitais da empresa que se beneficiou dessa cultura, já que as informações de visualizações e retenção dos conteúdos do catálogo fornecem insumos para novas produções."

Ou seja: a plataforma processa os 2+ petabytes de dados de consumo (o que as pessoas assistem, onde param, o que reassistem, em qual plataforma, a que hora) e a saída disso alimenta as decisões editoriais — o que produzir, o que promover, o que recomendar. É a versão corporativa do "o que o público quer" operando em escala e granularidade que nenhuma pesquisa de audiência tradicional permite.

2. Segmentação de audiência para distribuição. A mesma base de dados permite entregar "histórias mais relevantes" a cada fatia do público — não um conteúdo único para 100 milhões, mas perfis comportamentais que direcionam o que cada pessoa vê.

3. Otimização publicitária. A camada comercial: vender o inventário unificado de todas as plataformas (TV, Globoplay, G1, ge) como um pacote, com métricas de jornada multiplataforma por consumidor.

O que isso significa na sua divagação:

A Palantir não escreve o roteiro da novela. Mas ela determina quais narrativas têm chance de sobreviver ao filtro de engajamento. É uma forma de curadoria preditiva: o que entra em produção já foi, em parte, validado pelos padrões de consumo de 100 milhões de pessoas processados por uma plataforma que nasceu na CIA.

E o ponto que conecta à sua reflexão sobre "captura do pensamento": quando a decisão de o que produzir é tomada por um modelo preditivo baseado em comportamento de consumo, a função editorial deixa de ser (ao menos em parte) uma escolha autoral e vira uma otimização. O conteúdo não é mais "o que a redação acha que o Brasil precisa ver" — é "o que o modelo diz que o Brasil vai consumir". A resistência, nesse vetor, não é contra uma censura explícita — é contra a ausência de surpresa que um sistema preditivo impõe à produção cultural.
_____________________________________________________


"Tem gente que nem sabe, que não sabe." - E se você não quer saber,
é melhor não clicar na imagem abaixo
.