
Três figuras no alto, no escuro, segurando as cordas - O poder. Embaixo, homens, mulheres e crianças como marionetes, presos pelos fios. É a metáfora visual de como a fé pode ser distorcida e usada como instrumento de dominação, quando quem controla as cordas usa a crença para manter os outros submissos.
1. A tese
Três figuras no alto, no escuro, segurando as cordas - O poder. Embaixo, homens, mulheres e crianças como marionetes, presos pelos fios. É a metáfora visual de como a fé pode ser distorcida e usada como instrumento de dominação, quando quem controla as cordas usa a crença para manter os outros submissos.
A proposição "religiões são criadas por homens para dominar outros homens" não é original. Ela percorre a história do pensamento crítico desde a Antiguidade (Lucrécio, os cínicos) até a formulação canônica de Karl Marx em 1844: "A religião é o ópio do povo." O que torna a tese relevante hoje, no Brasil, não é a ideia em si, mas a densidade e a visibilidade com que certas instituições religiosas — em especial as evangélicas pentecostais e neopentecostais — operam como aparelhos simultâneos de acumulação de capital, captura do Estado e controle ideológico das camadas populares.
O que este artigo propõe não é a condenação da fé, nem a demonização de um grupo religioso inteiro. É a análise sociológica de como certas estruturas eclesiásticas se organizam para funcionar como o que Antonio Gramsci chamava de aparelhos de hegemonia: instituições que, sem usar a força bruta, produzem o consentimento dos dominados, naturalizando a hierarquia, a obediência e a renúncia ao presente em nome de uma recompensa futura.
A hipótese central é: o crescimento explosivo do evangelicalismo no Brasil não é um fenômeno espiritual. É um fenômeno de poder. E as estruturas que o sustentam — financeiras, políticas e teológicas — funcionam, em grande medida, como a tese descreve.
2. O arcabouço teórico: por que a religião pode ser instrumento de dominação
2.1 Marx: a religião como superestrutura
Para Marx, a religião não é uma força autônoma. É um produto das condições materiais. A exploração econômica gera sofrimento; o sofrimento gera a necessidade de consolo; o consolo é fornecido pela religião; e a religião, por sua vez, reproduz a exploração ao ensinar que a desigualdade é vontade divina, que o pobre deve ser grato, que a revolta é pecado e que a justiça virá "no além".
A frase completa, muitas vezes cortada, é mais precisa: "A religião é a expressão da dor real e ao mesmo tempo um protesto contra a situação real. Ela é o espírito de relações sem espírito, assim como é o cérebro de um mundo que carece de sentido." A religião não é a causa da exploração, mas é o anestésico que impede a exploração de ser percebida como tal.
2.2 Weber: a religião como motor e freio
Max Weber complicou o quadro. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905), mostrou que certas crenças religiosas aceleraram a acumulação de capital ao transformar o trabalho em vocação divina e a frugalidade em dever moral. Mas Weber também documentou o outro lado: a burocratização da Igreja, a profissionalização do sacerdócio, a criação de uma casta que se apropria dos "bens espirituais" e os distribui conforme sua própria lógica de poder. A religião, para Weber, pode ser tanto motor de transformação quanto cristalização da ordem.
2.3 Gramsci: a hegemonia como dominação sem força
O conceito mais útil para o caso brasileiro é o de hegemonia gramsciana. Para Antonio Gramsci, o domínio não se sustenta apenas pela polícia e o exército (dominação). Sustenta-se, antes de tudo, pelo consentimento produzido pela cultura, pela educação, pela moral, pela religião. O hegemônico não obriga: ele faz com que o dominado queira ser dominado, porque a ordem social foi codificada em valores que o dominado internalizou como "naturais" ou "divinos".
A igreja que ensina que "o presidente é ungido por Deus", que "a pobreza é provação", que "o dízimo é a única forma de agradar ao Senhor" e que "a igreja é a única família que Deus reconhece" está, em termos gramscianos, produzindo hegemonia: transformando uma relação de exploração em relação de gratidão.
2.4 Foucault: o poder pastoral
Michel Foucault, em Segurança, Território, População (1978), descreveu o poder pastoral como uma forma de governo que difere do poder soberano. O pastor não manda: ele cuida. Mas esse cuidado é totalizante: o pastor conhece cada ovelha, acompanha cada passo, corrige cada desvio, e a ovelha agradece por ser vigiada. O poder pastoral é, por isso, mais eficaz que o poder coercitivo: ele produz sujeitos que se autopolicem, que se confessem, que se cobrem, que se submetem voluntariamente.
A estrutura do culto evangélico contemporâneo — com sua ênfase na submissão ao pastor, na "cobertura espiritual", na "palavra profética" que orienta decisões pessoais (casamento, emprego, investimento) — é um exemplo quase didático do que Foucault descreveu.
3. O crescimento evangélico no Brasil: um fenômeno de poder
3.1 Os números
O Censo 2022 do IBGE registrou 31,2% de brasileiros se declarando evangélicos (19,3% pentecostais, 11,9% protestantes históricos). Em 1980, o número era de 6,7%. Em 1991, 10,8%. Em 2000, 15,4%. Em 2010, 22,2%.
O crescimento não é uniforme: ele se concentra nas classes D e E, nas periferias, no Norte e Nordeste. É exatamente onde o Estado é ausente, onde o serviço público é precário, onde a miséria é mais crua. E é exatamente onde a igreja oferece o que o Estado não oferece: comunidade, assistência material, sentido, pertencimento.
3.2 A troca implícita
A troca é esta: a igreja oferece comunidade, assistência, sentido e pertencimento. Em troca, ela recebe:
Dízimo (10% da renda) e ofertas (sem teto);
Submissão ao pastor como autoridade espiritual e, frequentemente, moral e política;
Voto em candidatos indicados;
Silêncio sobre as estruturas de poder que a própria igreja sustenta;
Renúncia ao presente: a promessa de que a verdadeira recompensa está no céu, não na terra.
Essa troca é o que Marx chamava de alienação: o trabalhador (aqui, o fiel) produz valor (dízimo, obediência, voto) para uma instituição que, em vez de devolver-lhe as condições de uma vida digna, devolve-lhe a promessa de uma vida digna no futuro, enquanto o presente de miséria é naturalizado como "vontade de Deus" ou "tempo de provação".
Dízimo (10% da renda) e ofertas (sem teto);
Submissão ao pastor como autoridade espiritual e, frequentemente, moral e política;
Voto em candidatos indicados;
Silêncio sobre as estruturas de poder que a própria igreja sustenta;
Renúncia ao presente: a promessa de que a verdadeira recompensa está no céu, não na terra.
4. A dimensão financeira: como as igrejas acumulam riqueza
4.1 O dízimo como mecanismo de extração
O dízimo é, em termos econômicos, um imposto voluntário de 10% sobre a renda bruta, cobrado sem contraprestação mensurável, sem transparência contábil obrigatória e sem possibilidade de questionamento (pois questionar é "falta de fé"). Para um trabalhador que ganha R$ 2.000 por mês, são R$ 200. Para uma família de quatro pessoas, R$ 800 por ano.
A escala é impressionante. A Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, estima receita anual superior a R$ 500 milhões. A Assembleia de Deus (a maior denominação) opera em mais de 30 mil congregações. A Igreja Mundial do Poder de Deus e a Renascer em Cristo completam o quadro das grandes máquinas financeiras.
4.2 A isenção fiscal como vantagem competitiva
O ponto estrutural: igrejas são isentas de impostos no Brasil. Não pagam IR, IPI, ICMS, IPTU (sobre seus imóveis), PIS, COFINS. Essa isenção, prevista na Constituição (art. 150, VI), foi desenhada para templos de culto, não para impérios empresariais que possuem emissoras de TV, editoras, escolas, hospitais, redes de rádio, plataformas digitais e holdings com dezenas de empresas.
O resultado: as igrejas operam com uma vantagem competitiva que nenhuma empresa laica possui. Elas podem reinvestir o dízimo sem a corrosão fiscal, expandir-se em escala, e competir no mercado de mídia, educação e saúde com um custo marginal inferior.
4.3 A opacidade
A Agência Pública, em série investigativa, documentou que:
Líderes religiosos são investigados por movimentação financeira suspeita, acúmulo de propriedades e sonegação;
Casos levam anos sem formalização de acusações;
Em ao menos um caso, o processo prescreveu sem decisão;
A Assembleia de Deus do Brás é investigada desde 2015 por possível lavagem de suborno pago a um político condenado na Lava Jato.
A opacidade é estrutural: a relação entre fiel e igreja é confidencial (confissão, aconselhamento), a contabilidade interna é privada, e a isenção fiscal elimina a auditoria que o fisco faria sobre qualquer outra empresa.
5. Lavagem de dinheiro: a igreja como lavadouro
Líderes religiosos são investigados por movimentação financeira suspeita, acúmulo de propriedades e sonegação;
Casos levam anos sem formalização de acusações;
Em ao menos um caso, o processo prescreveu sem decisão;
A Assembleia de Deus do Brás é investigada desde 2015 por possível lavagem de suborno pago a um político condenado na Lava Jato.
5.1 O mecanismo
A socióloga Constantine (citada no Jusbrasil) resume o mecanismo: "Como eles são isentos de impostos, viabiliza que ali se lave dinheiro do narcotráfico, de bicheiro, de político e de milícias."
O fluxo é:
Dinheiro ilícito (tráfico, milícia, corrupção) entra na igreja como dízimo, oferta ou doação;
A igreja, por ser isenta, não precisa justificar a origem do dinheiro;
O dinheiro é reinvestido em imóveis, veículos, empresas, ações — agora "limpos";
O líder religioso, como administrador da "obra", tem acesso legítimo a contas, imóveis e empresas.
Dinheiro ilícito (tráfico, milícia, corrupção) entra na igreja como dízimo, oferta ou doação;
A igreja, por ser isenta, não precisa justificar a origem do dinheiro;
O dinheiro é reinvestido em imóveis, veículos, empresas, ações — agora "limpos";
O líder religioso, como administrador da "obra", tem acesso legítimo a contas, imóveis e empresas.
5.2 Os casos documentados
Caso Detalhe PCC e igrejas (RJ/SP) Investigação do MP-RJ revelou que Valdeci Alves dos Santos, o "Colorido", líder do PCC, investiu em sete igrejas evangélicas para lavar dinheiro do tráfico. O pastor Geraldo dos Santos Filho ergueu patrimônio de R$ 6 milhões com a operação. Operação Plata (RN) MP-RN deflagrou operação contra grupo suspeito de lavar dinheiro do tráfico por meio de fazendas, gado e igrejas evangélicas. Operação Timóteo (SP, 2017) Polícia Federal indiciou o pastor Silas Malafaia por lavagem de dinheiro (caso arquivado depois, mas a investigação registrou o mecanismo). Igreja e rádio em MG (2023) MP-MG e Polícia Civil deflagaram operação contra igreja e rádio evangélicas suspeitas de movimentar R$ 6 bilhões em lavagem. Fraude no INSS (2026) Relatório do Coaf e da CGU indicou que igrejas evangélicas foram usadas como mecanismo de lavagem de dinheiro desviado de aposentados e pensionistas. Comando Vermelho e evangelização (MT, 2026) Polícia Civil prendeu missionária suspeita de usar projeto de evangelização em presídios para facilitar comunicação, movimentação de dinheiro e suporte a criminosos do CV.
5.3 A explicação estrutural
| Caso | Detalhe |
| PCC e igrejas (RJ/SP) | Investigação do MP-RJ revelou que Valdeci Alves dos Santos, o "Colorido", líder do PCC, investiu em sete igrejas evangélicas para lavar dinheiro do tráfico. O pastor Geraldo dos Santos Filho ergueu patrimônio de R$ 6 milhões com a operação. |
| Operação Plata (RN) | MP-RN deflagrou operação contra grupo suspeito de lavar dinheiro do tráfico por meio de fazendas, gado e igrejas evangélicas. |
| Operação Timóteo (SP, 2017) | Polícia Federal indiciou o pastor Silas Malafaia por lavagem de dinheiro (caso arquivado depois, mas a investigação registrou o mecanismo). |
| Igreja e rádio em MG (2023) | MP-MG e Polícia Civil deflagaram operação contra igreja e rádio evangélicas suspeitas de movimentar R$ 6 bilhões em lavagem. |
| Fraude no INSS (2026) | Relatório do Coaf e da CGU indicou que igrejas evangélicas foram usadas como mecanismo de lavagem de dinheiro desviado de aposentados e pensionistas. |
| Comando Vermelho e evangelização (MT, 2026) | Polícia Civil prendeu missionária suspeita de usar projeto de evangelização em presídios para facilitar comunicação, movimentação de dinheiro e suporte a criminosos do CV. |
Por que evangélicas e não católicas? Três razões:
Estrutura descentralizada: cada pastor é dono da sua igreja. Não há hierarquia, não há diocese, não há auditoria central. É mais fácil para um criminoso "comprar" um pastor local do que infiltrar a estrutura católica.
Crescimento explosivo: a multiplicação de templos cria demandas de capital (construção, equipamentos, expansão) que podem ser "atendidas" por dinheiro de origem ilícita.
Cultura do "milagre financeiro": a teologia da prosperidade (ver abaixo) torna o pastor um empreendedor que precisa de capital para "expandir a obra". A porta está aberta para investidores de qualquer origem.
Por que evangélicas e não católicas? Três razões:
Estrutura descentralizada: cada pastor é dono da sua igreja. Não há hierarquia, não há diocese, não há auditoria central. É mais fácil para um criminoso "comprar" um pastor local do que infiltrar a estrutura católica.
Crescimento explosivo: a multiplicação de templos cria demandas de capital (construção, equipamentos, expansão) que podem ser "atendidas" por dinheiro de origem ilícita.
Cultura do "milagre financeiro": a teologia da prosperidade (ver abaixo) torna o pastor um empreendedor que precisa de capital para "expandir a obra". A porta está aberta para investidores de qualquer origem.
6. Milícia e igreja: a "narcomilícia evangélica"
6.1 O estudo da Rede Fluminense
Um estudo da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos (publicado pelo Estadão) documentou:
"Igualmente relevantes são os relatos sobre conexões entre igrejas de perfil evangélico pentecostal e milícias. Algumas igrejas estariam servindo tanto para a lavagem de dinheiro das milícias como para azeitar sua articulação com políticos. Sem falar do fato de que por meio das igrejas realizam trabalho social, por exemplo, através da distribuição de sopa comunitária."
Um estudo da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos (publicado pelo Estadão) documentou:
"Igualmente relevantes são os relatos sobre conexões entre igrejas de perfil evangélico pentecostal e milícias. Algumas igrejas estariam servindo tanto para a lavagem de dinheiro das milícias como para azeitar sua articulação com políticos. Sem falar do fato de que por meio das igrejas realizam trabalho social, por exemplo, através da distribuição de sopa comunitária."
6.2 O mecanismo de controle territorial
A milícia controla o território pela força (armas, extorsão, violência). A igreja controla o território pelo consentimento (fé, comunidade, assistência). Juntas, formam um sistema de dominação total:
A milícia impõe: "pague o pedágio ou morre";
A igreja persuade: "confie em Deus, ele vai prover";
O morador obedece à milícia e se submete à igreja, e os dois se retroalimentam.
O pastor que é financiado pela milícia tem incentivo para não denunciar, para proteger os "doadores", para manter a comunidade quieta. A milícia que financia a pastor tem incentivo para manter a comunidade pacífica e controlada.
A milícia controla o território pela força (armas, extorsão, violência). A igreja controla o território pelo consentimento (fé, comunidade, assistência). Juntas, formam um sistema de dominação total:
A milícia impõe: "pague o pedágio ou morre";
A igreja persuade: "confie em Deus, ele vai prover";
O morador obedece à milícia e se submete à igreja, e os dois se retroalimentam.
O pastor que é financiado pela milícia tem incentivo para não denunciar, para proteger os "doadores", para manter a comunidade quieta. A milícia que financia a pastor tem incentivo para manter a comunidade pacífica e controlada.
6.3 O caso documentado
O próprio Edson Barbalho (governador do Pará) e o ex-governador Cláudio Castro (RJ) reconheceram em reuniões oficiais a existência de uma "narcomilícia evangélica" no Rio de Janeiro — uma estrutura criminosa formada por narcotraficantes e milicianos integrados a redes religiosas evangélicas.
O próprio Edson Barbalho (governador do Pará) e o ex-governador Cláudio Castro (RJ) reconheceram em reuniões oficiais a existência de uma "narcomilícia evangélica" no Rio de Janeiro — uma estrutura criminosa formada por narcotraficantes e milicianos integrados a redes religiosas evangélicas.
7. A dimensão política: a bancada e o dominionismo
7.1 A bancada evangélica
A bancada evangélica no Congresso Nacional reúne, em 2026, cerca de 130 a 140 deputados e 10 a 12 senadores — o equivalente a um partido de grande porte. Ela não é um partido: é uma aliança de parlamentares de diferentes partidos unidos pela identidade religiosa.
O poder da bancada se manifesta em:
Veto a projetos de direitos reprodutivos, diversidade e direitos humanos;
Apoio a projetos de "liberdade religiosa" que, na prática, isentam igrejas de regulamentação;
Captura de emendas e verbas públicas para "projetos sociais" ligados a igrejas;
Controle de agenda: a bancada condiciona o apoio ao governo em troca de pautas.
A bancada evangélica no Congresso Nacional reúne, em 2026, cerca de 130 a 140 deputados e 10 a 12 senadores — o equivalente a um partido de grande porte. Ela não é um partido: é uma aliança de parlamentares de diferentes partidos unidos pela identidade religiosa.
O poder da bancada se manifesta em:
Veto a projetos de direitos reprodutivos, diversidade e direitos humanos;
Apoio a projetos de "liberdade religiosa" que, na prática, isentam igrejas de regulamentação;
Captura de emendas e verbas públicas para "projetos sociais" ligados a igrejas;
Controle de agenda: a bancada condiciona o apoio ao governo em troca de pautas.
7.2 A Teologia dos Sete Montes
A Teologia dos Sete Montes (7M) foi formulada por Johnny Enlow nos EUA nos anos 1990 e disseminada por C. Peter Wagner (considerado o "pai do movimento apostólico" norte-americano). A base bíblica é Apocalipse 17:9: "As sete cabeças são sete montes."
As sete "montanhas" (ou esferas) são:
Monte Setor Exemplo brasileiro 1 Família Defesa do "projeto de família", veto a união civil 2 Religião Liberdade religiosa, isenção fiscal, veto a "ideologia de gênero" 3 Educação Escola sem Partido, homeschooling, veto a pautas de gênero 4 Mídia Rede Record, SBT, portais gospel, rádio 5 Arte e entretenimento Veto a "censura religiosa", promoção de cultura gospel 6 Negócios Mercado gospel, "moda evangélica", cartão de crédito gospel 7 Governo Bancada, candidatos "ungidos", teocracia suave
A tese central: cristãos devem ocupar posições de liderança nessas sete esferas para "reconquistar" o domínio perdido e preparar o "retorno de Cristo". Não se trata de "influenciar" — o vocabulário é de conquista, domínio, reconquista.
7.3 O Dominionismo
A Teologia dos Sete Montes (7M) foi formulada por Johnny Enlow nos EUA nos anos 1990 e disseminada por C. Peter Wagner (considerado o "pai do movimento apostólico" norte-americano). A base bíblica é Apocalipse 17:9: "As sete cabeças são sete montes."
As sete "montanhas" (ou esferas) são:
| Monte | Setor | Exemplo brasileiro |
| 1 | Família | Defesa do "projeto de família", veto a união civil |
| 2 | Religião | Liberdade religiosa, isenção fiscal, veto a "ideologia de gênero" |
| 3 | Educação | Escola sem Partido, homeschooling, veto a pautas de gênero |
| 4 | Mídia | Rede Record, SBT, portais gospel, rádio |
| 5 | Arte e entretenimento | Veto a "censura religiosa", promoção de cultura gospel |
| 6 | Negócios | Mercado gospel, "moda evangélica", cartão de crédito gospel |
| 7 | Governo | Bancada, candidatos "ungidos", teocracia suave |
A tese central: cristãos devem ocupar posições de liderança nessas sete esferas para "reconquistar" o domínio perdido e preparar o "retorno de Cristo". Não se trata de "influenciar" — o vocabulário é de conquista, domínio, reconquista.
O dominionismo (ou "teologia do domínio") é a vertente mais radical. Sua forma mais sistemática é o Teonomismo Reconstrucionista, formulado por R.J. Rushdoony e Greg Bahnsen nos EUA, que defende que a Lei Mosaica (Antigo Testamento) é a base legal para a legislação civil. O Estado deve ser governado pela lei bíblica.
No Brasil, o dominionismo se expressa de forma mais difusa, mas com a mesma lógica:
O pastor JB Carvalho (Comunidade das Nações) declarou publicamente: "Temos uma estratégia de conquista, trata-se do exercício de influência a partir dos chamados Sete Montes: política, economia, arte e entretenimento, mídia, família, religião e educação."
A Igreja Batista da Lagoinha (MegaChurch), de Marcelo Nogueira, foi analisada pela PUCRS como caso brasileiro de dominionismo: "A análise demonstra uma forte convergência entre o discurso da Igreja Batista da Lagoinha e os princípios do dominionismo."
O dominionismo brasileiro, segundo a mesma pesquisa, "constitui uma gramática político-religiosa em construção, que mobiliza símbolos do cristianismo evangélico para legitimar a tomada de poder por meio de lideranças religiosas conservadoras."
7.4 A conexão com o bolsonarismo
A pesquisa da PUCRS (2025) é explícita: o dominionismo brasileiro é a "gramática religiosa do bolsonarismo". A aliança entre o movimento evangélico e o PL não é casual: é a materialização política dos Sete Montes. A "família" vira pauta; a "educação" vira Escola Sem Partido; a "mídia" vira controle da narrativa; o "governo" vira teocracia suave.
8. A Teologia da Prosperidade: o mecanismo de alienação
A teologia da prosperidade (ou "teologia da saúde e prosperidade") é o elo entre a dimensão financeira e a dimensão ideológica. Ela ensina que:
Deus quer que você seja rico e saudável;
A pobreza é falta de fé ou pecado;
O dízimo e as ofertas são investimento que Deus "multiplica";
O pastor é o canal da bênção divina;
A doença é ataque espiritual (e a cura, "compra-se" com oferta).
O efeito prático:
O pobre culpa a si mesmo pela pobreza (falta de fé);
O pobre paga para ser curado (oferta de milagre);
O pobre obedece ao pastor (que detém a "palavra" da bênção);
O pobre não questiona a estrutura (porque questionar é "falta de fé");
O pastor acumula o dízimo e as ofertas em escala.
É o que Marx chamava de falsa consciência: o explorado acredita que sua exploração é culpa sua, e agradece ao explorador pela "oportunidade" de se "elevar espiritualmente".
9. O que as religiões "do mal" têm em comum: um padrão
O padrão que emerge dos casos documentados:
| Característica | Função no sistema |
| Estrutura hierárquica (pastor → presbítero → diácono → membro) | Reproduz a submissão; o líder é "ungido" e não pode ser questionado |
| Isenção fiscal | Permite acumulação sem auditoria; viabiliza lavagem |
| Opacidade contábil | Impede o rastreamento de recursos |
| Teologia da submissão | Produz o consentimento do dominado |
| Teologia da prosperidade | Transforma a exploração em "bênção" |
| Multiplicação de templos | Cria demanda de capital; expande a rede de controle territorial |
| Aliança política | Converte a base fiel em base eleitoral; captura o Estado |
| Trabalho social | Substitui o Estado; gera dependência; controla o território |
| Linguagem de guerra | "Batalha espiritual", "domínio", "conquista" — naturaliza a agressão |
Nenhuma dessas características é essencial à fé cristã. Todas são, porém, estruturais nas igrejas que as adotam. A distinção é crucial: não é a religião que domina; é a estrutura de poder que se esconde atrás da religião.
10. E as outras? Por que Umbanda e Budismo não se encaixam no modelo
O usuário fez uma ressalva importante: Umbanda e Budismo não se encaixam no padrão. Por quê?
10.1 Umbanda e religiões afro-brasileiras
Estrutura horizontal: não há "pastor" no sentido de líder que acumula. O pai/mãe de santo é um mediador, não um proprietário. A hierarquia é fraca e contestável.
Economia de baixa escala: as casas de umbanda não operam como empresas. Não há dízimo sistemático, não há rede de templos, não há emissora de TV.
Não isenção: embora tenham isenção fiscal, a escala é tão pequena que a isenção não gera vantagem competitiva.
Relação com o poder: historicamente, as religiões afro foram perseguidas pelo Estado, não aliadas dele. A relação com o poder é de resistência, não de captura.
Comunidade, não clientela: o terreiro é um espaço de pertencimento, não de consumo. O fiel não "compra" bênção; ele participa de um ritual coletivo.
10.2 Budismo
Ausência de clero proprietário: o monge budista, na tradição original, vive em comunidade (sangha) e não acumula. A regra monástica proíbe a posse de riqueza pessoal.
Não teologia de dominação: o budismo não tem a noção de "reino de Deus na Terra", nem de "conquista" de esferas sociais. A meta é a liberação individual (nirvana), não o controle social.
Economia de doação, não de dízimo: o monge recebe esmola, não cobra. Não há "investimento" espiritual.
Não aliança política: o budismo, onde está presente (Japão, Tailândia, Coreia), não opera como bloco político. Não há "bancada budista".
10.3 Outras tradições que não se encaixam
Sufismo (misticismo islâmico): estrutura horizontal, ênfase na experiência interior, não na captura institucional.
Judaísmo reformista/liberal: separação nítida entre sinagoga e política; o rabino não é "pastor" no sentido de líder comunitário-total.
Cristianismo ortodoxo (Grécia, Rússia, Egito): embora tenha história de aliança com o Estado (cesaropapismo), a estrutura é congelada — não há crescimento, não há "expansão da obra", não há teologia da prosperidade.
Candomblé: mesmo padrão da Umbanda.
O que distingue as religiões que se encaixam no modelo de dominação das que não se encaixam não é a "verdade" teológica (isso é inquestionável por definição). É a estrutura organizacional: hierarquia vertical, escala empresarial, isenção fiscal em larga escala, teologia de submissão, aliança política, linguagem de guerra.
11. A ressalva necessária: não é "a religião", é "a estrutura"
É fundamental evitar o erro de generalização que transforma uma crítica sociológica em perseguição religiosa:
Nem todo evangélico é dominionista. A grande maioria dos fiéis não conhece a Teologia dos Sete Montes. Eles vão à igreja porque encontram comunidade, sentido e assistência em um contexto de exclusão. Culpar o fiel pela estrutura que o explora é o mesmo erro que culpar o operário pela fábrica.
Nem toda igreja lava dinheiro. A maioria das igrejas pequenas opera com transparência (ou pelo menos com a opacidade normal de qualquer associação civil). Os casos de lavagem são específicos e envolvem redes criminosas que se aproveitam da estrutura, não a criaram.
A Igreja Católica tem seu próprio histórico de dominação. A Inquisição, a aliança com monarquias, o poder temporal dos papas, a Pedofilia institucional, a Vaticano como potência financeira — a crítica se aplica com a mesma força. O fato de a crítica estar focada no evangelicalismo hoje se deve ao crescimento e à visibilidade desse fenômeno, não a uma "essência" da fé protestante.
O Islã e o Hinduísmo têm seus próprios casos de captura do Estado, de teocracia e de uso da religião para dominação (Paquistão, Arábia Saudita, Índia de Modi). O modelo não é exclusivo do cristianismo.
A crítica é estrutural, não teológica. Ataca a organização do poder que se esconde atrás da fé, não a fé em si.
12. A pergunta que importa
A pergunta não é "religião é boa ou má?" — essa pergunta é indecidível por definição (é uma questão de fé, não de evidência).
A pergunta é: "Quando uma instituição religiosa se organiza como uma empresa, se alia ao Estado, acumula isenções fiscais, produz teologia de submissão, opera em opacidade e se conecta a redes criminosas, ela ainda é uma 'igreja'? Ou é um aparelho de dominação que usa a linguagem da fé como verniz?"
A resposta, pelos dados, é que ambas as coisas existem simultaneamente: há fé genuína e há exploração estrutural, e as duas coexistem na mesma instituição. O fiel que chora no culto e o pastor que assina o contrato de R$ 5 milhões com a milícia estão na mesma sala. A fé é real. A exploração também.
A tarefa da sociedade não é destruir a fé. É desmontar a estrutura que permite que a fé seja usada como instrumento de dominação: transparência contábil, fim da isenção fiscal em larga escala, separação nítica entre igreja e Estado, investigação rigorosa das conexões entre igrejas e redes criminosas, e — talvez o mais difícil — educação para que o fiel possa distinguir entre a mensagem e o mensageiro, entre a fé e a estrutura que a instrumentaliza.
13. Conclusão
A tese do usuário — "religiões são criadas por homens para dominar outros homens" — é parcialmente correta e parcialmente redutora.
Correta porque: a história documenta, em todas as civilizações, o uso da religião como instrumento de legitimação do poder, de controle social e de extração de recursos. O caso brasileiro contemporâneo — com a multiplicação de templos, a conexão com milícias e tráfico, a captura do Congresso, a Teologia dos Sete Montes e a opacidade financeira — é um exemplo especialmente vívido desse padrão.
Redutora porque: sugere que toda religião é sempre e apenas instrumento de dominação, o que ignora a dimensão genuinamente transformadora de muitas tradições (o budismo engajado, a teologia da libertação, o misticismo sufista, a resistência das religiões afro). A religião pode ser instrumento de dominação. Não é necessariamente.
A distinção que importa não é entre "religiões boas" e "religiões más". É entre religião como experiência (que pode ser autêntica, libertadora, comunitária) e religião como estrutura de poder (que pode ser opressiva, exploradora, dominadora). As duas coexistem. A tarefa é separá-las.
Referências principais: Marx, K. (1844) "Manuscritos Econômico-Filosóficos"; Weber, M. (1905) "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo"; Gramsci, A. (1971) "Cadernos do Cárcere"; Foucault, M. (1978) "Segurança, Território, População"; Enlow, J. (1995) "The Seven Mountains Mandate"; Rushdoony, R.J. (1973) "The Days of Vengeance"; PUCRS (2025) "Dominionismo: Fé, Poder e Política"; Rede Fluminense de Pesquisas (2020); Agência Pública (2023) "Paraísos de Dinheiro e Fé"; IHU/Unisinos (2024) "A Teologia do Domínio".
Leia também:
A relação entre André Mendonça, Acton Institute, Atlas Network, Dominionismo e a Teologia dos Sete Montes.
Leia em:
https://andredaguiar.blogspot.com/2026/09/a-relacao-entre-andre-mendonca-acton.html
Leia também:
O Fio
Da Atlas à Lagoinha, do NED ao STF — como o Brasil foi desenhado para não ver.
A frase que gerou o livro. A metáfora do fio.
"Tem muita gente que nem sabe, que não sabe". - Não é burrice, é design. E o design pode ser desenhado de volta.
Em: https://andredaguiar.blogspot.com/2026/09/o-fio.html
leia também:
A Relação entre Milícias e Igrejas Evangélicas no Rio de Janeiro:
Poder, Território e Religião em Tempos de Crise Democrática
Em: https://andredaguiar.blogspot.com/2026/03/a-relacao-entre-milicias-e-igrejas.html
Outras sugestões de leitura nos títulos clicáveis abaixo:
A Máquina da Mentira: Como a Extrema Direita Está Recriando o Golpe de 2016 para 2026. - O Mapeamento do Golpe Continuado.
A Herança Maldita: O Vírus Desinformacional e o Custo do Apodrecimento Social.
Teocracia Armada: O Projeto de Poder de Flávio Bolsonaro e o Fim da Laicidade no Brasil
A laicidade no Brasil está valendo?
Há Drogas e, drogas. - A Neurobiologia do Caos.
Educação, Informação, Conhecimento e Sabedoria: O Caminho Natural para o Ateísmo.
Ciência, Educação e Secularização: Por que os Estudiosos Tendem a Ser Menos Religiosos