Não esqueçamos Bruno Pereira



Em 5 de junho de 2022, na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, o indigenista Bruno Pereira foi morto e esquartejado. Ao seu lado, o jornalista britânico Dom Phillips. A Polícia Federal concluiu que o crime foi motivado pela atuação de Pereira na defesa dos povos isolados e na fiscalização ambiental. Quatro anos depois, o Brasil volta a se deparar com a mesma pergunta que o assassinato de Bruno colocou: para quem serve este país?




Quem foi Bruno




Bruno Pereira foi etnólogo, servidor da Funai e especialista em povos indígenas isolados e de primeiro contato. Exonerado em 2019 durante o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, continuou atuando como consultor da Univaja (União das Organizações Indígenas do Vale do Javari). Seu trabalho era mapear invasões garimpeiras, doencas e violências contra povos que, por definição, não podem ser encontrados sem que sejam destruídos. Bruno não era um militante de rua. Era um técnico, um servidor público, um pai. Sua morte é a materialização mais brutal da política ambiental e indigenária de um governo que, por quatro anos, tratou a floresta e seus povos como obstáculos ao progresso.




O pai e suas palavras





O assassínio de Bruno não foi um acidente. Foi consequência direta de um discurso sustentado ao longo de décadas. Como deputado federal, Jair Bolsonaro declarou em 1998 que a cavalaria brasileira foi "incompetente" por não ter "dizimado" os indígenas. Em 2015, disse que "não tem terra indígena onde não têm minerais" e que "não entro nessa balela de defender terra pra índio". Em 2018, prometeu: "Não demarcarei um centímetro quadrado a mais de terra indígena. Ponto final."




Contra os ambientalistas, o tom era ainda mais explícito. Em agosto de 2019, diante das queimadas na Amazônia: "Pode estar havendo, sim, ação criminosa desses 'ongueiros' para chamar a atenção contra a minha pessoa." Em setembro de 2020, na ONU, cunhou o termo "bioterrorismo" para enquadrar a atuação de ONGs e países críticos. "A gente bota para quebrar em cima desse pessoal. Não consigo matar esse câncer em grande parte chamado ONG que tem na Amazônia", disse em uma live em 2020.




O desastre ambiental




As palavras se traduziram em política. Durante o governo Bolsonaro:




- Nenhuma nova terra indígena foi demarcada entre 2019 e 2022.

- A Funai foi transferida para o Ministério da Agricultura.

- O desmatamento na Amazônia atingiu o maior nível em 15 anos (2021: 13.235 km²).

- O número de mortes de indígenas e lideranças ambientais disparou.

- O marco temporal foi defendido com afinco, ameaçando a posse de terras indígenas.

- A fiscalização ambiental foi desmontada: agentes da IBAMA e ICMBio viraram alvos.




O genocídio de povos indígenas não é metáfora. É dado. A CIDH recebeu denúncias formais de ONGs em 2021. O Conselho de Direitos Humanos da ONU instaurou procedimento contra o Brasil. A mortalidade de indígenas por violência e por colapso sanitário (pandemia) foi a mais alta da história.




O que Flávio Bolsonaro propõe




Agora, em outubro de 2026, Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno presidencial. E o que ele propõe não é uma ruptura com o legado do pai — é sua continuação e radicalização.




O "Tesouraço": O plano de governo prevê cortes equivalentes a 1,5% do PIB, corte de ao menos 10 ministérios, redução de cargos comissionados e retomada do Programa Nacional de Desestatização. O Farmácia Popular, que atende 27,3 milhões de brasileiros com medicamentos gratuitos, simplesmente não aparece nas 76 páginas do plano. Não há compromisso com sua continuidade.




O "Plano Real da Saúde": A proposta de Flávio para o SUS é genérica, focada em "gestão técnica" e correção da tabela de remuneração. O indicado para o Ministério da Saúde, Cláudio Lottenberg, tem defendido publicamente a ampliação de Organizações Sociais de Saúde (OSS), Parcerias Público-Privadas (PPPs) e contratação de serviços da rede privada. A análise da Unifesp é direta: o plano "não fala da expansão do sistema, apenas da APS; além de assumir a entrada da iniciativa privada como solução."




Educação: O plano propõe transferir a educação superior do MEC para o Ministério de Ciência e Tecnologia, ampliar escolas cívico-militares e incluir "competências para a economia digital" nos currículos. Não há menção à expansão de vagas em universidades públicas.




Ameaça à Constituição:** Na última terça-feira, 6 de outubro, em Goiânia, Flávio Bolsonaro disse textualmente: *"O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara, para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar esse país."*




As mudanças já anunciadas incluem: redução da maioridade penal para 16 anos, fim da reeleição para cargos executivos e limitação de competências do STF. O IHU (Instituto Humanitas Unisinos) calcula que a bancada aliada a Flávio no próximo Senado terá até 50 cadeiras — suficiente para aprovar emendas constitucionais.




O risco




A Constituição de 1988 é o documento que garantiu a demarcação de terras indígenas, o SUS, a vinculação de recursos para saúde e educação, os direitos trabalhistas e a proteção ambiental. Não é um acidente que Flávio Bolsonaro a queira mudar. Não é um acidente que o "Tesouraço" venha acompanhado de privatizações "caso a caso" e de um Congresso que ele descreve como instrumento de mudança constitucional.




O que se joga no segundo turno não é apenas a manutenção ou o fim de um programa social. É a própria arquitetura de direitos que levou décadas para ser construída. É a diferença entre um país em que um indigenista pode ser esquartejado sem que nada mude — e um país em que a morte de Bruno Pereira significou, ao menos, a prisão dos assassinos e o reconhecimento público de que a política de desmonte custou vidas.




Não esqueçamos Bruno Pereira. Não esqueçamos que ele morreu porque um presidente declarou, em público, que os indígenas eram "massa de manobra" e que as ONGs eram "câncer". E não esqueçamos que o filho está de volta, com a mesma retórica, um plano de governo que apaga o Farmácia Popular, entrega o SUS a OSS e PPPs, e promete usar a maioria no Congresso para reescrever a Constituição.




A escolha do 15 de outubro não é entre dois projetos de governo. É entre a continuidade de uma política que matou Bruno Pereira — e a possibilidade de que, desta vez, a morte dele signifique algo.







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