O bilionário Peter Thiel, a Palantir, as terras raras brasileiras e a arquitetura de um "plano B" para a elite global
Por André da Silva Aguiar, em 15 de outubro de 2026
I. A visita que ninguém anunciou
Em 30 de abril de 2026, uma comitiva de pelo menos 15 pessoas se hospedou no Rosewood, em São Paulo. O grupo foi identificado internamente pelo hotel como "Thiel Capital & Presidio One". Entre os nomes: Hanna Leeke, assistente executiva pessoal de Peter Thiel; Andrew Dias, diretor de tecnologia da Thiel Capital; e Kaitlin Leard.
Thiel — cofundador do PayPal e da Palantir, bilionário, cristão apocalíptico, transhumanista declarado — veio oficialmente para um encontro com CEOs de grandes empresas brasileiras, promovido pela Enter, startup de IA jurídica avaliada em mais de US$ 1 bilhão e que conta com investimento do próprio Founders Fund.
Ninguém sabe quem mais estava no evento. Ninguém sabe quais outros encontros Thiel teve no país. A visita ocorreu a três meses das eleições de outubro.
Não foi a primeira vez que Thiel operou em silêncio no Cone Sul. Em abril de 2026, ele se mudou temporariamente para Buenos Aires, comprou uma mansão de ~US$ 60 milhões, foi recebido na Casa Rosada por Javier Milei e revelou, em agosto, uma posição de US$ 76 milhões em ações da Vista Energy — a maior exportadora de petróleo argentino, operando em Vaca Muerta. É a segunda maior posição do fundo Thiel Macro, atrás apenas da Amazon.
A pergunta que a oposição argentina projetou em telas no Congresso — "por que Thiel está aqui?" — é a mesma que o Brasil precisa fazer.
II. A infraestrutura invisível
A Palantir não extrai minério. Não produz petróleo. Não planta soja. Ela faz algo mais fundamental: fornece a camada de visibilidade sobre tudo o que os outros fazem.
O contrato com a TV Globo, iniciado em 2019 e estendido em dezembro de 2025, integra mais de 2 petabytes de dados para processos comerciais, publicitários e de audiência. A arquitetura é a mesma do "Gemelo Digital Social" argentino, anunciado em maio de 2026: uma IA que centraliza registros biográficos, financeiros e de saúde de milhões de pessoas para "prever impacto de políticas sociais".
A diferença entre 2016 e 2026 é de ordem, não de grau. A Cambridge Analytica lia likes e sugeria comportamento. A Palantir funde biometria, finanças, saúde, localização, rede social e registros governamentais para modelar o indivíduo completo, prever sua ação e executar a resposta em tempo real. O ICE americano usa a plataforma para gerar alvos de deportação. O IDF israelense usa para infraestrutura de dados em Gaza. O NHS britânico integra dados de saúde de toda a população.
E a Palantir opera em infraestrutura AWS (EUA). O que isso significa na prática? Que, via Cloud Act americano, dados de qualquer país podem ser acessíveis a autoridades dos EUA. A Suíça já concluiu que o produto é "estruturalmente incompatível com sua soberania". O Brasil ainda não fez essa pergunta.
Em março de 2026, a Bain & Company expandiu sua parceria global com a Palantir incluindo operações em São Paulo. A Bain é a consultora que assina M&A de grandes empresas. É onde a Serra Verde — a mina de terras raras de Goiás — foi comprada.
III. O solo e a janela
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo (21 milhões de toneladas, segundo o USGS; 11,4 milhões após revisão da ANM em 2026). Tem 98% das reservas globais de níbio. A segunda maior reserva de grafite. O aquífero Guarani (~30.000 km³ de água doce). O pré-sal. A maior floresta tropical do planeta. E uma agropecuária que alimenta bilhões.
E produz 0,005% da produção global de terras raras.
O abismo entre reserva e produção é a janela. E a janela está se fechando:
86% dos pedidos de exploração de terras raras no Brasil foram feitos nos últimos 3 anos; 40%+ têm financiamento estrangeiro (AP, agosto de 2026).
A USA Rare Earth comprou a Serra Verde Group por US$ 2,8 bilhões em 2026 — a única produtora em grande escala fora da Ásia dos quatro elementos magnéticos críticos.
Em abril de 2026, André Marinho, próximo ao candidato presidencial Flávio Bolsonaro, viajou aos EUA e se reuniu com o vice-presidente JD Vance. Na mala, um documento estratégico de 22 páginas: se Bolsonaro vencer, o Brasil tornará suas reservas de terras raras e minerais críticos mais acessíveis aos EUA, como parte de uma aliança estratégica contra a dominação chinesa no processamento de matérias-primas. O documento propõe aprovação acelerada de licenças, integração das cadeias extrativas às supply chains ocidentais e parceria com o financiamento do Departamento de Defesa americano.
(Fonte: IPS Journal, 13 de outubro de 2026.)
IV. O padrão: Groenlândia, Argentina, Brasil
Thiel não opera o Brasil isoladamente. O padrão é repetitivo:
A arquitetura é a mesma em todos os pontos: recurso + infraestrutura de dados (Palantir) + enquadramento político local + opacidade contratual.
V. A tese do autor: soltar a contenção
(A partir daqui, o texto passa ao enquadramento analítico do autor. Os fatos citados estão documentados acima; a interpretação é do repórter.)
A leitura que proponho não é a de um "plano de extermínio". É mais sutil — e por isso mais difícil de refutar.
Não se trata de eliminar a população. Trata-se de remover as amarras que a sustentam, acelerar a substituição por máquinas, e garantir que a elite esteja do lado certo da seleção quando o processo se completar.
A formulação importa. "Exterminar" exige um executor, uma ordem, um gatilho — e isso é detectável. "Acelerar a seleção" não exige nada disso: basta soltar a contenção.
É exatamente o que o conceito de katechon — que Thiel usa repetidamente — implica. Se o katechon é a força que segura o colapso, então "acelerar a seleção" é remover o que segura. Thiel não precisa fazer nada. Precisa apenas não segurar. E é exatamente o que a plataforma de desregulamentação propõe: fim de proteções trabalhistas, abertura total das fronteiras extrativas, enfraquecimento do Estado regulador, substituição de mão de obra por automação. O "reset" não é um evento. É um processo de aceleração que já está em curso.
A palavra "seleção" é o que torna a tese inatacável na superfície. Ninguém vai ser "eliminado". O que vai acontecer é que, com menos proteção social, mais automação, mais custo de vida, menos acesso a recursos (água, terra, energia), a reprodução biológica simplesmente cai — e os que sobram são os que têm capital, tecnologia e acesso à arca. É a lógica de Darwin aplicada à economia: não é violência, é seleção por aptidão.
E o ponto mais incômodo: é o que já está acontecendo sem qualquer "plano". A taxa de fecundidade no Brasil já está em 1,6. A automação está substituindo trabalhadores. O custo de vida está subindo. A segurança social está sendo erodida. O que a arquitetura Thiel/Palantir/USA Rare Earth/Bolsonaro faz é remover os freios e acelerar o que já está em curso — e garantir que quem constrói a arca esteja do lado certo da seleção.
Thiel não vai dizer "quero que a população diminua". Ele vai dizer "a estagnação é terrível, não sei como resolver, a demografia está colapsando". E enquanto diz isso, compra a mina de terras raras, instala a Palantir na maior empresa de mídia do país, recebe-se na Casa Rosada e reserva um lugar na arca.
O "bode expiatório" — na linguagem de René Girard, a que Thiel usa — é a população que vai ser "gerida" pela transição. E o "katechon" — a força que segura o apocalipse — é a infraestrutura de controle que a elite constrói para sobreviver à transição e sair do outro lado, imortal ou em outro lugar.
A arca não é para salvar a humanidade. É para garantir que a seleção não alcance quem construiu a arca.
VI. Flávio Bolsonaro e o imperialismo de infraestrutura
A pergunta que este artigo propõe não é "Thiel quer os recursos do Brasil?" — a resposta é óbvia. A pergunta é: quem é o agente local que operacionaliza essa arquitetura?
O documento de 22 páginas entregue a JD Vance por André Marinho é o elo mais concreto entre o campo Bolsonaro e a integração das cadeias extrativas brasileiras às supply chains americanas. A proximidade de André Marinho com Flávio Bolsonaro é documentada. A candidatura de Flávio às presidenciais de 2026 está em curso.
Não há evidência de que Flávio Bolsonaro seja "o candidato do imperialismo norte-americano" no sentido de um agente que recebe ordens. Mas há evidência de que a plataforma de sua candidatura converge, ponto a ponto, com os interesses da arquitetura Thiel/Palantir/USA Rare Earth: abertura das terras raras, integração à defesa americana, desregulamentação ambiental, enfraquecimento do Estado regulador, alinhamento com Milei.
A convergência não é prova de subordinação. Mas é suficiente para que a pergunta seja feita: se a vitória de Flávio Bolsonaro for a condição para que a Serra Verde seja processada nos EUA, para que o pré-sal seja integrado à rede de data centers da Crusoe, para que o aquífero Guarani seja "gerido" pela mesma IA que gerencia a população argentina — então a candidatura não é apenas uma disputa eleitoral. É a chave de uma transição de soberania.
VII. O que ainda não se sabe
O jornalismo investigativo tem um limite: o que não está nos documentos. E o que falta é exatamente o que importa:
O que a Palantir processa especificamente sobre os 2 PB de dados da Globo? O contrato é privado. A plataforma é closed-source. Ninguém sabe.
Thiel/Founders Fund tem participação na USA Rare Earth? Não há confirmação pública.
O documento de 22 páginas inclui a Palantir como parceira tecnológica? Não se sabe.
Quem mais estava no evento da Enter em São Paulo? Não foi divulgado.
A Palantir tem contrato ativo com o Serpro/FNDE? O contrato do Pnate foi descontinuado em julho de 2026. Mas há outros?
O "Gemelo Digital Social" argentino será replicado no Brasil? A arquitetura é idêntica. A pergunta é de quando, não de se.
VIII. A pergunta que ninguém faz
A oposição argentina projetou "por que Thiel está aqui?" em telas no Congresso. Milei e Thiel foram convidados. Não compareceram.
No Brasil, a pergunta equivalente não foi feita. Não pelo Congresso. Não pela ANATEL. Não pela CVM. Não pelo TCU.
A pergunta não é "o que Thiel quer?" — ele nunca vai dizer. A pergunta é: "O que a presença da Palantir, a compra da Serra Verde, o documento de 22 páginas e a candidatura de Flávio Bolsonaro fazem, juntos, concretamente, e para quem?"
A resposta não depende da confissão de Thiel. Depende de abrir os contratos. E enquanto eles forem fechados, a arca está sendo construída em silêncio.
Este artigo foi produzido a partir de reportagens do IPS Journal (13/10/2026), Diálogos do Sul / OpeMundi (maio/2026), AP (agosto/2026), Tech Policy Press (abril/2026), Brown Political Review (2026), Folha de S.Paulo, The New York Times, The Guardian (2025), e da newsletter Noites Húngaras / CTRL+Z (22/09/2026). A interpretação analítica das seções V e VI é do autor.