O Preço do Alinhamento e o Dividendo da Cooperação

Por que o imperialismo quer o Brasil sem a China — e o que o NDB constrói no lugar

Por André da Silva Aguiar
15 de outubro de 2026


I. A entrevista de Dilma

Em 10 de outubro de 2026, cinco dias antes desta publicação, Dilma Rousseff — presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) — concedeu entrevista a Leonardo Attuch e Fernando Morais na TV 247. O que ela disse resume, em uma hora de fala, a diferença entre os dois modelos:

"A multipolaridade é multilateral, multicultural e multidiversa. É muito difícil manter o estágio atual de desenvolvimento da humanidade com modelos unilaterais e hegemônicos, onde um único centro impõe suas regras, sua cultura e sua visão de mundo."

E, sobre o mecanismo concreto:

"Nós precisamos de um sistema de pagamentos fora do dólar. E os BRICS são essenciais e únicos para construir esse sistema de pagamentos fora do dólar. Isso está funcionando, está acontecendo."

Os números que ela apresenta:

  • ~R$ 23,95 bilhões em operações de financiamento aprovadas para o Brasil desde março de 2023.

  • 46% das operações do NDB já realizadas em moedas locais (fora do dólar).

  • Expansão para ~20 países até meados de 2027.

  • Nova estratégia 2027–2031: "maior, mais verde, mais digital, mais inovador, mais ágil e mais cooperativo".

  • Pequenos reatores nucleares modulares como prioridade estratégica.

  • Tokenização como instrumento de "resistência geopolítica" contra a arquitetura financeira ocidental.

  • Cooperação com o Ministério da Saúde brasileiro e a Narayana Health (Índia) em projetos de saúde.

A palavra que ela usa repetidamente é "cooperação mutuamente benéfica". E o que está em jogo não é retórica: é transferência de tecnologia, infraestrutura e capacidade industrial.


II. Os dois mecanismos

A diferença entre o modelo americano e o modelo chinês/BRICS não é moral. É estrutural. E a estrutura se revela nos contratos:

Dimensão

Modelo EUA

Modelo China/BRICS

Tecnologia

Export controls (CHIPS Act, restrições a chips, bloqueio Huawei no 5G de aliados)

Transferência ativa: 5G (Huawei), IA (acordo de maio/2025), satélites (SpaceSail/Telebras, 2026), nuclear (NDB), ferrovias (CRRC), portos (CCCC)

Financiamento

Condicionalidades (FMI, Banco Mundial): ajuste fiscal, abertura de mercados, privatizações

"Sem condicionalidades" (NDB): o país define as prioridades, o banco financia

Moeda

Dólar como âncora obrigatória (SWIFT, Cloud Act, sanções unilaterais)

Moedas locais (46% do NDB já fora do dólar); sistema de pagamentos alternativo em construção

Recursos

Extração sem upgrade: o Brasil exporta soja, minério, petróleo, terras raras in natura; o processamento fica nos EUA (ou na China)

O Brasil exporta e recebe a infraestrutura para processar: data centers, reatores nucleares, cabos submarinos, fibra óptica, 5G

Punição por desvio

Tarifas (aço/alumínio 2019), ameaças de exclusão do SWIFT, Cloud Act

Não se aplica — não há "exclusão" de um sistema cooperativo

Alinhamento político

Exigido como condição (Ernesto Araújo, "valores democráticos", OTAN)

Não exigido — o NDB financia a Rússia (sancionada), a Venezuela, o Irã, sem exigir mudança de regime

O ponto central: o modelo americano extrai e bloqueia. O modelo chinês/BRICS transfere e coopera. Não é uma questão de "quem é mais gentil". É uma questão de quem sai do outro lado da transação com mais capacidade industrial do que entrou.


III. O experimento Bolsonaro: o preço do alinhamento

O governo Bolsonaro (2019–2022) foi o teste controlado do modelo americano aplicado ao Brasil. E o resultado é inequívoco:

O que Bolsonaro fez (alinhamento aos EUA):

  • Nomeou Ernesto Araújo (chanceler) — diplomata que chamou a China de "maoísta" e defendeu a ruptura com o Sul Global.

  • Visitou Taiwan em fevereiro de 2019, irritando Pequim.

  • Eduardo Bolsonaro atacou o "vírus chinês" durante a pandemia.

  • Abraham Weintraub fez piadas xenofóbicas contra chineses.

  • O Itamaraty sob Araújo abandonou o multilateralismo e se posicionou como "aliado de valores" de Washington.

  • O Brasil se isolou do G20, da UNFCCC, da OMS.

O que os EUA fizeram em resposta (recompensa pelo alinhamento):

  • Impuseram tarifas de 25% sobre aço e 10% sobre alumínio brasileiros em dezembro de 2019 — a Folha registrou que "auxiliares da Casa Branca dizem que a aproximação de Bolsonaro com a China foi agravante". Ou seja: o Brasil foi punido por tentar manter a relação com a China, mesmo estando alinhado aos EUA.

  • Não houve transferência de tecnologia.

  • Não houve isenção de export controls.

  • Não houve integração das cadeias extrativas brasileiras à indústria americana (o que o "documento de 22 páginas" de 2026 propõe pela primeira vez).

  • O Brasil continuou exportando commodities in natura.

O que aconteceu com a China (apesar do alinhamento):

  • O comércio bilateral não caiu. As exportações brasileiras para a China em 2019 foram de US$ 63 bilhões, contra US$ 29 bilhões para os EUA.

  • O superávit acumulado com a China no governo Bolsonaro (jan/2019–jul/2022) foi de US$ 127,7 bilhões — mais do que os US$ 127,2 bilhões acumulados em 15 anos de Lula, Dilma e Temer.

  • A China não puniu o Brasil pelas provocações. Absorveu, continuou comprando, e manteve a relação comercial.

A conclusão é brutal: o alinhamento aos EUA não trouxe nenhum benefício concreto ao Brasil. Trouxe tarifas, isolamento diplomático e perda de reputação. E a relação com a China continuou — porque o mercado não obedece a chanceleres.

O artigo do Le Monde Diplomatique (agosto/2025) resume:

"O uso recorrente de medidas punitivas contra países aliados, sem oferecer benefícios tangíveis, mina a confiança estratégica e estimula o surgimento de alternativas. A experiência brasileira durante o governo Bolsonaro é emblemática: mesmo com alinhamento retórico e ideológico à Casa Branca, o país foi alvo de sanções tarifárias e excluído de benefícios duradouros."



IV. O que a China está fazendo agora (e o que os EUA não fazem)

Em 2025–2026, a cooperação Brasil-China está em nível sem precedentes:

Área

O que está acontecendo

IA

Acordo de maio/2025: cinco áreas de cooperação (infraestrutura, treinamento, plataformas, segurança, capacitação). Supercomputador chinês a ser instalado no Rio de Janeiro (set/2026). Pacote de R$ 2,5 bi em infraestrutura de IA no RN, com cooperação chinesa + chip nacional + fornecedor americano

5G / Telecom

Huawei presente no leilão 5G brasileiro. SpaceSail (constelação de satélites chinesa) firmou acordo com a Telebras para internet via satélite em áreas remotas do Brasil em 2026

Nuclear

NDB (presidido por Dilma) anuncia pequenos reatores nucleares modulares como prioridade. Cooperação Brasil-China em energia nuclear já existe (Angra 3)

Infraestrutura

State Grid, CCCC, CRRC: ferrovias, portos, rodovias, saneamento — com transferência de tecnologia e construção/operación

Economia digital

Acordo de maio/2025: banda larga, cabos ópticos submarinos, data centers, computação em nuvem, edge computing, cidades inteligentes

Saúde

NDB + Ministério da Saúde + Narayana Health (Índia): projetos de saúde em execução

Finanças

46% das operações do NDB em moedas locais. Tokenização. Sistema de pagamentos fora do SWIFT

Os EUA não oferecem nada disso. Não há um "NDB americano" que financie o Brasil sem condicionalidades. Não há transferência de chips (há export controls). Não há construção de reatores nucleares. Não há constelação de satélites. O que os EUA oferecem é: acesso ao mercado consumidor americano (que está encolhendo com as tarifas) e segurança militar (que o Brasil não pediu).



IV-B. O contraponto concreto: o NDB como antídoto à Palantir

Enquanto a Palantir constrói uma infraestrutura de controle sobre a população e os recursos, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) constrói o oposto: uma infraestrutura de desenvolvimento que transfere capacidade industrial para o Sul Global. A comparação não é retórica. É estrutural:

Dimensão

Palantir (modelo Thiel/EUA)

NDB (modelo BRICS)

Função

Visibilidade + controle + predição sobre a população

Financiamento + transferência de tecnologia + infraestrutura

Quem sai do outro lado

A empresa (US$ 4,4B em receita, 36 países) e a elite que a financia

O país (capacidade industrial, energia, saneamento, saúde)

Dados

Captura, funde e modela indivíduos (biometria, finanças, saúde, localização)

Não captura indivíduos — financia projetos (barragens, ferrovias, reatores, hospitais)

Moeda

Dólar (Cloud Act, SWIFT)

Moedas locais: 46% das operações já fora do dólar; meta de 40–50% em 2027–2031

Condicionalidades

Contrato fechado, closed-source, opacidade total

"Sem condicionalidades políticas" — o país define as prioridades

Tecnologia

Export controls (bloqueio de chips, restrição Huawei)

Transferência ativa: 5G, IA, nuclear, satélites, ferrovias

População

Objeto de modelagem e gestão preditiva

Beneficiário de infraestrutura (saneamento, saúde, energia, transporte)

Transparência

Closed-source; contratos sigilosos

Projetos públicos, metas declaradas, governança multilateral

O que o NDB já fez pelo Brasil (números concretos)

  • 29 projetos aprovados para o Brasil até meados de 2025, totalizando ~US$ 7 bilhões (desembolsos na casa de R$ 4 bilhões).

  • Em 2026, pelo menos três novos empréstimos aprovados, totalizando ~US$ 1 bilhão: energia renovável, transporte sustentável, infraestrutura regional e saúde inteligente (Hospital Inteligente, com IA aplicada à saúde pública).

  • O projeto mais recente (julho de 2026): Climate Resilient Electricity Distribution — distribuição elétrica resiliente ao clima, não-soberano.

  • ~R$ 23,95 bilhões em operações de financiamento aprovadas para o Brasil desde março de 2023 (número citado por Dilma na entrevista de 10/10/2026).

  • Prazos de 10 a 30 anos, custos competitivos — estrutura pensada para empreendimentos que bancos comerciais e investidores privados recusam.

O que o NDB vai fazer em 2027–2031 (a estratégia de Dilma)

Dilma Rousseff, reeleita por unanimidade em março de 2025 para mandato até 2030, apresentou na entrevista de 10 de outubro de 2026 (TV 247) e no 11º Encontro Anual (Moscou, maio/2026) os pilares do próximo ciclo:

"O banco será maior, mais verde, mais digital, mais inovador, mais ágil e mais cooperativo. A prioridade deve ser desenvolver oportunidades diversificadas em moedas locais, encorajar o aprofundamento dos mercados de capital locais e reduzir a dependência dos tradicionais centros financeiros globais."

As prioridades concretas:

  • Transferência tecnológica e inovação no centro de todas as linhas de atuação.

  • Pequenos reatores nucleares modulares como prioridade estratégica.

  • Portal de Inovação BRICS–NDB: plataforma de compartilhamento de avanços científicos (Experiências da Embrapa, biotecnologia, veículos elétricos).

  • IA aplicada à saúde pública (Hospital Inteligente no Brasil).

  • Parques industriais, agropecuária de alta precisão, computação em nuvem, data centers, cidades inteligentes.

  • Tokenização como instrumento de "resistência geopolítica" contra a arquitetura financeira ocidental.

  • Expansão para ~20 países-membros até meados de 2027 (hoje: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados, Bangladesh, Argélia, Uzbequistão; em processo: Etiópia, Angola, Zimbábue).

  • Meta de 40–50% dos financiamentos em moedas locais no ciclo 2027–2031.

A frase que resume a diferença

A Palantir pergunta: "O que essa pessoa vai fazer?" — e age.
O NDB pergunta: "O que esse país precisa para desenvolver?" — e financia.

Uma modela o indivíduo. A outra constrói a infraestrutura que o indivíduo usa.

E é aqui que a tese do artigo se fecha: a escolha entre Flávio e Lula não é apenas "esquerda vs. direita". É a escolha entre ser o objeto de um modelo preditivo (Palantir, Gemelo Digital, Cloud Act) ou ser o beneficiário de uma infraestrutura de desenvolvimento (NDB, BRICS, transferência tecnológica, moeda local).

O Brasil não precisa "escolher um lado" no sentido de adesão. Precisa escolher o mecanismo: quem vai ter visibilidade sobre o que sai do solo brasileiro — e quem vai receber, em troca, a tecnologia para processá-lo.


V. O que o imperialismo quer com Flávio Bolsonaro

Agora a peça se encaixa. O "documento de 22 páginas" entregue a JD Vance por André Marinho (abril/2026) não é apenas sobre "abrir as terras raras". É sobre quebrar o eixo Brasil-China para que o Brasil volte a ser o que foi no século XX: fornecedor de matéria-prima sem upgrade industrial.

A lógica é:

  1. Se o Brasil tem a China: recebe tecnologia (5G, IA, nuclear, satélites, ferrovias), financia-se sem condicionalidades (NDB), opera em moedas locais (fora do dólar), e constrói capacidade industrial própria. O resultado: o Brasil processa suas próprias terras raras, opera seus próprios data centers, gera sua própria energia nuclear. Não é mais um fornecedor passivo.

  2. Se o Brasil tem os EUA (Flávio): exporta as terras raras in natura (ou semi-processadas) para as supply chains americanas, sem receber a tecnologia para processar. O pré-sal vai para a rede de data centers da Crusoe (EUA). O níbio vai para a indústria aeroespacial americana. O grafite vai para as baterias americanas. E o Brasil fica com o buraco no solo e o CO₂ da mineração.

  3. O isolamento da China é o mecanismo: se o Brasil se alinha a Washington, a pressão política (e as ameaças de sanções, Cloud Act, exclusão de mercados) torna a cooperação com a China arriscada. A Huawei sai do 5G. A SpaceSail não assina com a Telebras. O NDB perde relevância (como perdeu sob Bolsonaro: "não tomaram empréstimos por 16 meses", nas palavras de Dilma). E o Brasil volta a ser apenas exportador.

É por isso que a pergunta da oposição argentina — "por que Thiel está aqui?" — tem um corolário brasileiro: "Por que o imperialismo quer o Brasil sem a China?" A resposta: porque com a China, o Brasil se torna industrial. Sem a China, o Brasil fica sendo a fazenda de alguém.


VI. A antevisão do autor

(Enquadramento analítico do autor.)

O que está em jogo nas eleições de 2026 não é apenas "esquerda vs. direita" ou "Lula vs. Flávio". É a escolha entre dois modelos de relação com o resto do mundo:

  • Modelo 1 (Flávio/EUA/Thiel/Palantir): o Brasil é um nó de extração. Exporta recursos, importa controle (Palantir, Cloud Act, SWIFT, dólar), e a população é "gerida" pela infraestrutura preditiva. A elite constrói a arca. A seleção demográfica acelera. O planeta é "otimizado" para a arca.

  • Modelo 2 (Lula/China/BRICS/NDB): o Brasil é um nó de cooperação. Exporta recursos e recebe tecnologia, financia-se em moeda local, constrói capacidade industrial própria, e a população é "desenvolvida" (na linguagem do NDB) — ou seja, ganha infraestrutura, saúde, energia, conectividade. O planeta é "desenvolvido" para a população que nele vive.

Não é um binarismo moral. É uma escolha de mecanismo. E o mecanismo define quem fica do lado de dentro quando a seleção demográfica — acelerada ou não — se completar.

A frase de Dilma que resume tudo:

"É muito difícil manter o estágio atual de desenvolvimento da humanidade com modelos unilaterais e hegemônicos, onde um único centro impõe suas regras, sua cultura e sua visão de mundo."

A pergunta que o eleitor brasileiro precisa fazer em outubro não é "você é de esquerda ou de direita?". É: "você quer que o Brasil processe o que sai do seu solo, ou que exporte in natura e receba, em troca, uma infraestrutura de vigilância?"


Fontes: Entrevista Dilma Rousseff, TV 247 (10/10/2026); Folha de S.Paulo (02/12/2019); BBC News Brasil (01/10/2022); Le Monde Diplomatique (05/08/2025); IPS Journal (13/10/2026); Brasil de Fato (25/05/2025); TELETIME (13/05/2025, 19/01/2026); Exame (21/08/2026); Agência Brasil (09/07/2025); Poder360 (24/08/2022); UOL/AFP (21/09/2022).

A interpretação analítica das seções V e VI é do autor.






Não esqueçamos o que foi o (des)governo Bostanaro...
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